Entrevista da revista Go OUTOSIDE com Lance Armstrong

Em seu primeiro ano longe das competições, Lance Armstrong, o heptacampeão do Tour de France, arrecadou milhões de dólares para a luta contra o câncer, tornou-se um dos donos de uma equipe de ciclismo (a Discovery Channel) e fechou sua primeira maratona em menos de três horas - tudo isso enquanto se tornava uma celebridade dos tablóides e aparecia na capa de dezenas de revistas nos Estados Unidos e no mundo. Em 2007, o aposentado mais ocupado do mundo não parece que vai sossegar. Nos planos, fi lmes, mais maratonas e trilhas de mountain bike, como ele contou nesta entrevista exclusiva à Go Outside
GO OUTSIDE: Em outubro de 2006, seu diagnóstico de câncer completou dez anos. Parece ter sido há uma eternidade?
ARMSTRONG: Parece. Mas sou lembrado dele todos os dias por causa do trabalho que venho fazendo com a Lance Armstrong Foundation. Sou lembrado porque as pulseirinhas amarelas da campanha LiveStrong estão por toda parte. Ano passado, passei esse dia em casa. Levei as crianças pra escola de manhã. À tarde saí para uma corridinha. Foi um dia muito legal.
Você parece ter se adaptado muito bem à aposentadoria.
Sim, mas tive que me ajustar. É difícil deixar de ser extremamente bem condicionado, ganhar uns quilinhos, sentar na bike e não se sentir o mesmo. Aqueles caras por quem eu costumava passar zunindo, agora pedalo com eles.
Algum arrependimento de não disputar só mais um Tour de France?
Não. Se os ciclistas profissionais competissem até os 45 anos, talvez fosse diferente. Mas eu sei que, se continuasse, estaria desafiando a história. Sou um cara velho para o esporte. Tenho 35 anos. Foi com essa idade que Miguel Indurain [ciclista espanhol, primeiro a vencer cinco vezes seguidas o Tour] foi derrotado. Preferi sair antes que isso acontecesse.
Você fala muito sobre estar com 35 anos. É algo que te preocupa?
Do ponto de vista esportivo, 35 é bem velho! [Risos.] Mas, por outro lado, é como se eu tivesse virado um adolescente. Porque dos 15 aos 35 anos eu tive uma vida de monge, totalmente focada nos esportes. E agora eu posso relaxar e ir com meus amigos pra uma festa, cair na balada. A maioria das pessoas faz isso na época de colégio e faculdade. Eu estou tendo isso pela primeira vez.
Há fotos suas em toda a mídia norte-americana. Como é ser uma celebridade, nesses dias em que qualquer um com um celular é um paparazzi em potencial?
É inacreditável. Preciso realmente levar isso em consideração quando saio pra tomar umas cervejas com meus amigos. Nada é sagrado. Nada é privado. Eu não sei o quão longe estamos de transmitir imagens de vídeo ao vivo de pessoas na rua.
Quão difícil é lidar com boatos lançados por revistas de fofoca?
Boatos como o de que você e o ator Matthew McConaughey seriam mais que bons amigos? É tão ridículo! [Risos.] Eu sei do que gosto e sei do que McConaughey gosta, e não é nada disso que estão falando!
Então esclareça outro boato: quem vai fazer o seu papel no filme sobre sua vida, que deve ser filmado ainda em 2007?
Matthew McConaughey, Jake Gyllenhaal ou Matt Damon? Os rumores de que seria Jake ou Matthew começaram porque eles são meus amigos e parceiros de balada. Mas o roteiro do filme ainda nem está finalizado. E se os atores que estiverem interessados tiverem um mínimo de integridade, vão querer ler o roteiro. Mesmo o Jake já me disse "Escuta, eu adoro pedalar, você é meu amigo, mas preciso ler o roteiro".
Você tem algum poder de decisão sobre o filme?
Um pouco. Mas chega um ponto em que você simplesmente entrega o projeto prum escritor em quem confia e diz "OK, pode mandar bala". Fiz algumas coisas bem loucas na minha vida, e eles provavelmente vão incluí-las no roteiro. Na estréia, eu provavelmente tentarei esconder o rosto e direi "Nossa, eu fiz mesmo isso?". Mas o que me importa mesmo é o que diz respeito ao ciclismo. O cara que for fazer o meu papel não pode ser um ator que pedale com os joelhos abertos, com a cabeça indo pra frente e pra trás. Isso é uma vantagem de Jake: quando ele está pedalando, parece que é um ciclista profissional, o que é muito bacana.
Como o seu trabalho na Lance Armstrong Foundation está te ajudando a lidar com a aposentadoria?
Eu tenho necessidade de competir e canalizei essa minha energia na fundação. Ou pelo menos tentei canalizar. Mas é algo totalmente diferente da competição esportiva. Não existe aquele momento de definição que existe no esporte, tipo "consegui". Em vez disso, eu tenho várias pequenas vitórias.
Que vitórias o empolgam?
Toda vez que um candidato à Presidência nos liga e viaja até Austin para fazer uma reunião conosco. Quando um candidato faz isso, o outro tem que igualar ou superar esse esforço. É isso que vai nos levar a uma grande vitória. Que vitória? Acabar com a doença. Não é um sonho que possa se tornar realidade em um ou dois anos - pode não se tornar nem em 20 -, mas podemos começar a progredir desde já.
Você arrecadou quantias impressionantes com a fundação e a campanha LiveStrong. Pra onde vai esse dinheiro?
Já levantamos US$ 140 milhões até agora. E com isso distribuímos muita verba para projetos. Não são projetos de um milhão de dólares. São projetos de US$ 5 mil, para pacientes que precisam de transporte até os locais de tratamento, ou projetos de pesquisa de US$ 100 mil. Nosso trabalho é mais focado na comunidade. Não estamos patrocinando o projeto de alguém que quer mapear o genoma do câncer. Para isso, é preciso centenas de milhões de dólares, e é obrigação do governo patrocinar isso.
Você pediu a Bush um bilhão de dólares.
Sim. Estávamos almoçando e ele perguntou "Como você está?". Ele não perguntou "Como a fundação está indo?". Era como se quisesse saber se eu tinha viajado nos últimos dias, ou visto algum filme legal. Fui direto à questão do câncer, achando que poderia ter uma recepção calorosa, já que a irmã dele morreu da doença. E lancei a idéia do bilhão. Ele só disse "OK, vou pedir a algumas pessoas que analisem a possibilidade". Pelo menos ele não respondeu "Cê tá louco?", nem me mandou embora.
Mas a proposta foi pra frente?
Não conseguimos o bilhão. Estamos bem no fim da lista de prioridades do orçamento dele. Não teremos nenhuma mudança nessa área, acho, até termos um novo presidente e uma nova administração. Enquanto isso, a guerra no Iraque vem custando US$ 2 bilhões por semana. As guerras do Iraque e Afeganistão terão gasto trilhões de dólares quanto tiverem acabado. Seis ou sete meses no Iraque e no Afeganistão equivalem a 35 anos de financiamento ao tratamento do câncer.
Um ano atrás, você falava em ser governador do Texas. Ainda está interessado?
Governador do Texas. [Pausa.] Parece legal, mas provavelmente não seria tão legal na realidade. Acredito que sou mais eficaz fora do gabinete. Tento ser o menos político possível.