Fonte: site repórter social

A saúde de quem pedala nas cidades sofre com a poluição e com a exposição aos acidentes de trânsito, já que a maioria dos municípios brasileiros não tem estrutura para garantir a segurança do ciclista. Por outro lado, a atividade física pode prevenir problemas cardíacos, aumentar a resistência aeróbica, reduzir a obesidade, ativar a musculatura de todo o corpo e diminuir a ocorrência de doenças crônicas.
Para o médico patologista Paulo Saldiva, pedalar numa cidade poluída subtrai alguns dos benefícios que o exercício traria normalmente, mas não é o fato de estar no meio dos carros que aumenta a absorção de poluentes. “Quanto mais aumenta o exercício, maior a dose de poluição absorvida pelos pulmões. Mas qualquer exercício feito em qualquer lugar da cidade acarreta o mesmo efeito”, diz.
“Acredito que os malefícios da poluição são compensados pelos ganhos com a atividade física”, comenta Saldiva. O médico de 50 anos, que pedala cerca de 30 quilômetros por dia em São Paulo, atribui sua boa condição física ao uso da bicicleta. “Estou bem melhor que os colegas da minha idade. Ou a bicicleta faz bem, ou o Audi faz mal…”, ironiza.
Com as roupas na mochila, o professor titular, chefe do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, chega todos os dias ao trabalho de bicicleta. “Chego 7h30 e saio 20h. Em que outro horário eu poderia fazer um exercício tão completo?”.
O grupo Ciclo Brasil, que reúne pesquisadores das Universidades Estadual e Federal de Santa Catarina, defende que as atividades físicas não sejam relegadas às horas de lazer, mas inseridas no dia-a-dia. O grupo desenvolve projetos de incentivo da bicicleta na promoção da saúde e da preservação do meio ambiente.
Milton della Giustina, um dos coordenadores do Ciclo Brasil, afirma que pedalar é uma das poucas formas de atividade física, que pode ser praticada pela maioria da população como parte das suas atividades de vida cotidiana. “Além do aspecto da saúde, o uso da bicicleta tem a ver com inclusão social”.
Pedalar: recomendação da OMS
Segundo o estudo “Mobilidade Ativa – Políticas de transporte e suas conseqüências para a saúde pública”, publicado pelo grupo de pesquisadores, para ser considerada moderadamente ativa, uma pessoa precisa gastar de 1500 a 2500 kcal em atividades físicas semanais. Segundo o documento, a orientação é para que as pessoas se exercitem por 30 minutos todos os dias ou na maior parte dos dias da semana.
Pedalar numa intensidade baixa, diz o relatório, pode aumentar a capacidade física de homens e mulheres, se a atividade for repetida pelo menos três vezes na semana numa distância de 6 quilômetros.
A Organização Mundial da Saúde recomenda o uso da bicicleta como uma das saídas para melhorar a saúde pública mundial. Em sua “Estratégia Global de Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde”, a OMS recomenda aos governos a criação de “planos integrados de atividades físicas, levando-se em conta políticas de transportes e planejamento urbano”. O documento enfatiza que estes planos não apenas trazem benefícios médicos diretos, mas “aumentam a interação social, fornecem lazer e reduzem a violência, o tráfego urbano e a poluição”.
O Conselheiro da Associação Brasileira de Medicina do Trânsito (Abramet), Alberto Branco, observa que há um aumento evidente do número de ciclistas em circulação nas cidades – por isso o poder público deveria investir em projetos cicloviários, aproveitando a demanda para gerar benefícios à saúde pública. “Não acho que a bicicleta vá ser a solução para o problema da poluição. Haveria alguma queda dos níveis de emissão, mas o grande beneficiado em termos de saúde seria o próprio ciclista, que sairia do sedentarismo”, afirma.
A OMS avalia que a inatividade física causa dois milhões de mortes anualmente em todo o mundo. O sedentarismo causa entre 10 e 16% dos casos de câncer do seio, do cólon e diabetes. Causa também 22% das doenças coronárias isquêmicas. Segundo o relatório, o ideal para fugir desta estatística é inserir a atividade física em quatro campos das atividades diárias: no trabalho, no lazer, nos trabalhos domésticos e no transporte, o que inclui a bicicleta e a caminhada.
O risco de ter uma doença cardiovascular cresce uma vez e meia em pessoas que não seguem as recomendações mínimas de atividade física – que correspondem a cerca de 58% dos adultos do planeta. Os totalmente inativos chegam a 17%, enquanto outros 41% praticam menos que o mínimo de duas horas e meia semanais de atividades físicas.
O pesquisador Felipe Pivetta Carpes, do Laboratório de Biomecânica da Universidade Federal de Santa Maria (RS) chama a atenção para os problemas de saúde que podem ser causados pela postura do ciclista. “Um erro comum é deixar o banco baixo demais para tentar alcançar o chão com os pés. A altura do banco não tem nada a ver com a distância do chão”, diz.
Carpes explica que o modo mais prático de regular a altura do selim é manter a perna esticada, com o pedal no ponto mais baixo e o calcanhar tocando o pedal. “Desse jeito o joelho flexiona próximo do ideal. Se ficar estendido ou flexionado demais, há uma compressão exagerada da articulação e o movimento repetitivo vai causar desconforto – além disso, o desempenho é prejudicado, porque não se consegue fazer força”. O especialista recomenda que os ciclistas não ultrapassem o limite de uma hora de pedal sem fazer pausas. Depois deste período, é alta a probabilidade de aparecerem dores na região lombar.