Matéria: Valci Barreto
Editor Meu Zine e Bike Book
Consultor e colaborador do Mural de Bugarin
Coordenador do Grupo Jabutis Vagarosos
Profissão: Advogado, "carimbador maluco" e cicloativista
Nascido em Jaguaquara, cidade do Vale do Jequiriça, famosa pelo São João, Colégio Taylor Egídio, friozinho gostoso, produção de hortifruti, notadamente tomate, as primeiras bicicletas que vi foram as do tipo barra-forte, barra circular e algumas européias, trazidas certamente pelos colonizadores italianos, cujos descendentes compõem boa parte da sua população. Foram também as primeiras que montei. Meu pai tinha uma verde, toda equipada com descanso, dois espelhos grandes sobre o guidom, bagageiro e descanso. Foi nela que aprendi a montar, no início da ladeira do bairro da Casaca, mesmo hoje bastente pobre.
Ainda hoje, são os tipos de bicicletas que gosto: barra forte ou circular, com bagageiro, cestinha ou mesmo “cestão”. Nos centros das cidades, a minha preferida é qualquer uma que tenha quadro baixo, tipo “bicicleta de mulher”, porque são mais leves e fáceis para delas descer e empurrar, o que é muito necessário em locais de pedestres e obstáculos urbanos.
Sem ser atleta, pertenço ao mundo dos passeios de bicicletas, sem ser intelectual, acadêmico, considero-me do mundo dos livros dos livros, das leituras desprentensiosas, fazendo vivendo ambos por puro prazer. Ando de bicicleta, em grupo ou em passeios solitários, mesmo fora e para fora de Salvador.
Sempre me causou curiosidade , jamais levando a sério, o preconceito que envolve uma série de objetos, atitudes, comportamentos. Vou me ocupar aqui apenas de alguns relacionados a bicicletas, como as sem marcha, as do tipo barra circular ou barra forte, com cestinha e bagageiro.
No meio dos amantes de passeios ciclísticos de Salvador, uma crônica , “Minha Bike Tem Cestinha”, da nossa editora Itana Mangieri, tornou-se clássica. Era um grito bem humorado, da nossa cicloativista, muito querida por todos nós, contra os que debochavam da sua bike, munida sempre daquele equipamento, tão comuns em regiões que cultuam, de verdade, a magrela, a exemplo da Holanda.
Tive e tenho que estar “brigando”, em favor das “minhas bicicletas”: quase sempre com cestinha, bagageiro e descanso.
E vou continuar na minha luta. A final, não vejo outra forma para comprar e levar livros, jornais, frutas, remédios, pequenos objetos, que compro ou transporto para entregar a alguem pelo caminho, notadamente livros e revistinhas usadas para crianças.
George Argolo, apesar de vir da simplicadade da querida cidade de Santo Amaro da Purificação, tornou-se um cicloativista, muito “metido a besta”: só quer andar em bicicletas com muitas marchas, peso de algodão voando, sem cestinha, descanso e jamais de bagageiro. Espelhos, somente se for daqueles "fashions", quase invisíveis, de marcas conhecidas não só pelas qualidades mas também pelos preços elevados. Sendo um dos mais atuantes cicloativistas, filantropo em seus/nossos passeios, sempre levando algum presente, livro, leite para entidades carentes, têm tido dificuldade em colocar tudo em uma mochila, também "de marca", com prejuízos para sua coluna, ainda resistente, em função da sua juventude e vigor, e principalmente para os livros e revistas , que não se machucariam se bem acondicionados em cestinhas ou bagageiro.
Como muitos, para atender à imposição da imposta pelos inimigos das cestas, espelhos, bagageiros e descanos das magrelas, prefere fazer sofrer livros, revistas dentro das mochilas.
Mas o prejuízo maior, para quem pensa como George, (o George de depois da Estrada Real) é para as entidades beneficiárias, pois ele sempre leva menos do que gostaria. Diz: levo o resto de carro. Mas aí, pelo menos para o caso, não vejo graça. Carro é carro, bicicleta é bicicleta. Não tem que “misturar” .
Não quero depender de carro para transportar um livro, uma revista, um remédio, ir tomar um sorvete em nossos Jabutis e Biciclotecas, nem machucá-lo em mochilas, também muito úteis em tais passeios. Por isto, minha bike tem cestinha, vai ter cestão e até carrocinha uma delas já tem.
Que as outras existam, mas para as corridas do Dimitri, as viagens de George, Alex/Alessia, pelas montanhas mineiras. Para as ruas de Salvador, meus passeios pela Linha Verde, fico com as minhas, de qualquer marca, bem baratinhas, de cestinha, cestão, descanso e bagageiro, desde que quem rodem, não quebrem pelos caminhos.
Já estou comprando a minha barra circular, vermelha, de bagageiro, cestão e descanso. Entre as vantagens deste último equipamento, evita sujar as paredes das lojas em nossas paradas.
Para mim, o prazer está no pedal em si, nos passeios, no mundo que a bicicleta me proporciona; o que vejo pelas ruas, becos, sebos, brechós, aprendizado com pessoas que encontro. Para isto, desde que rode, qualquer bicicleta me serve. Nas ladeiras, obstáculos, desço, empurro-a, com o mesmo prazer da montaria: vou vendo coisas, sentindo também outro tipo de prazer.
É o mesmo prazer que tenho em ler um livro de qualquer época, seja ele novinho da livraria Siciliano, ou velhinho, do ponto do seu Alfredo, ou do sebo do Eraldo, no terminal da Lapa: eu quero é ler.
Para a Capital baiana, cidade plana para pedalar, não sei para que bicicleta com marcha, nova, cara e ainda sem cestinha e descanso. Acho coisa de subdesenvolvido, que nunca viu, sequer, uma foto de bicicleta rodando na Holanda.
Depois, ainda dizem que o tabaréu sou eu ! …