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Em uma cidadezinha do interior, perdida entre tantas outras que existem por ai no nosso sertao, daquelas que tem pracinha, com o velho coreto que ninguém usa mais, igreja e todos o simbolos de cidade pequena.
Certo dia, apareceu do nada um grupo de três ciclistas viajantes, com capacetes, luvas, mochilas e alforjes no bagageiro, e todas aquelas coisas de cicloturistas.
Logo foram cercados pela meninada que nunca viram bicicletas e ciclistas daquele jeito.
Seus nomes eram: Melchior , Gaspar e Baltazar.
Como estavam com muita sede, resolveram parar em frente a um boteco.
- Boa tarde a todos - disse Gaspar.
- Boa, tão vindo de longe? - Logo perguntou o dono do bar atrás do balcão.
- Querem tomar uma branquinha para esfriar? hehehe !
- Não obrigado, agradeço a gentileza, mas se conseguir uma garrafa de água pra gente, já tá bom demais, olha, não precisa ser bem gelada, respondeu Melchior.
- Coragem esta de voces, heim? Ficar por ai pedalando mundo afora, neste calorão danado, subindo e descendo ladeira, nestas estradas, deus me livre, correndo risco de assalto e tudo mais, eu não tenho esta coragem não, viu? Não nasci para isto! No máximo jogo minha bolinha no sábado, já tá bom demais!
- Acho que coragem não lhe falta não senhor , talvez não consiga vê-la, mas é um homem corajoso senão estaria ai agora recebendo a gente de bracos abertos - Disse Baltazar.
- Tá bom! Mas me desculpe a curiosidadade da pergunta, para onde voces estão rompendo? Em direção a capital?
- Seu Moço , nós acabamos de chegar e nosso destino final é aqui mesmo, nesta cidade, viemos entregar uns presentes...
- Então estavam pagando promessa? Por que não usaram os correios? Só pode ser promessa vir de tão longe de bicicletas para entregar presentes...
- Não é bem promessa, tem coisas que só pessoalmente, entende ?
- Não entendo não, mas deixa prá lá, olha se quiserem alguma coisa para comer, acabei de assar estas azinhas de galinha ai, com farofa fica uma delicia!
- Obrigado mais uma vez, meu senhor, mas o que gostaria mesmo era de uma informação, o senhor por acaso sabe onde fica a casa de uma mulher chamada Maria ?
- Ah meu amigo! Tem tanta mulher por aqui com esse nome, tem Maria lavadeira, tem Maria dona do Brega, tem Dona Maria, a véia Parteira Maria , e por ai vai, e tem até uma que acabou de chegar esses dias, parece fugindo de algum lugar, ela é mulher de um carpinteiro sabe, ela teve aqui hoje, tava meio aflita pois o filho tá para nascer, o nome dela tambem é Maria tá com um barrigão danado, acho que não demora para pular fora a crianca...
Os três ciclistas agradeceram a informação e perguntaram onde ficava a casa dessa tal Maria, mulher do carpinteiro, era para o seu filho que estavam trazendo presentes guardados nos alforges da bicicleta.
- Essa Maria mora numa roca que nem casa tem, fica numa rocinha abandonada, os senhores seguem o estradão, depois vai ter que pegar um caminho de boi, ai vai ter uma subida dificil...
- Subida dificil é nossa cara - disse Baltazar sorrindo.
- Obrigado pela sua acolhida! E por sinal, qual o seu nome? Perguntou Melchior.
No final, antes de sairem, quiseram pagar pela bebida, mas o dono do bar não aceitou e disse que era um prazer recebê-los em sua cidade.
- O meu nome é Pedro, me chamam de Pedro do Tempo, não sei bem por que, acho que eu tenho esta mania de ficar prevendo se vai chover ou não, bobagen do povo...
A noite já caia quando os três ciclistas seguiram em direção a casa de Maria, pegaram o estradão, romperam trilha adentro até o topo e mesmo com o peso da bagagem nenhum dos três sairam das bikes.
Ficaram meio perdidos no meio do caminho, mais ai viram no ceu uma luz forte que parecia vir do topo de uma serra, era um estrela brilhante. Seguiram aquela direcão.
Finalmente avistaram a casa de Maria, na verdade não era uma casa e sim um curral com telhas de eternit meio quebradas, dentro dela estava Maria, deitava dentro de um cocho de racão coberto de capim seco, cercada estranhamente por alguns animais, um cachorro todo peludo cheio de carrapichos, um burro velho ainda com um cabresto, na certa fugiu do dono, mais quatro ovelhas pretinhas da raca Santa Ines e finalmente um galo e uma galinha pendurados na longarina do curral.
Os ciclistas chegaram, sem fazer alarde notaram o choro da crianca que já havia nascido.
Cada um abriu o seu alforje para tirar e entregar o seu presentes.
Melchior trazia dentro do seu uma caixinha com vários pares de meia para a crianca, bordada de bicicletinhas pequenas.
Baltazar tirou do seu alforje empoeirado, uma lanterninha destas que a gente coloca no capacete para iluminar os nossos caminhos nos pedais noturnos.
Gaspar carregava na mão uma camisa comprada em uma feira hippie, bem pequenininha de bike, com o simbolo da paz bordada no meio.
Todos deixaram o seu presente ao lado do menino e Gaspar perguntou a Maria:
- E ai? Qual vai ser o nome do menino, ele levará a mensagem da paz pelo mundo pedalando !
- Vai se chamar Jesus, Jesus de Nazare
Era 24 de Dezembro, a primeira noite de Natal
texto Dimitri Viana
criado por dimitrivianna
07:50:49