14.9.07

Trilha da Laranja 1

Texto e imagens: Itana Mangieri / Pesquisa cultural: Wikipédia

 Através no MSN recebi a seguinte pergunta ? – "No dia 02 de Setembro vc vai estar aqui para ir para a Trilha da Laranja ?" E a resposta foi única com duplo sentido: - "Eu vou".
Para falar a verdade, me interessei mais pelas laranjas ! Mas uma pedalada no meio dos laranjais não me faria mal, mesmo porque precisava desenferrujar e desopilar e quando me sinto estressada, só aventuras assim me equilibram.
Ourém fica à 182Km de Belém. O grupo EART (Equipe de Aventuras Ratos de Trilhas) resolveu fazer essa trilha em duas etapas. Acordamos cedo e na rodoviária de Belém, ajeitamos nossas bikes no bagageiro do ônibus e seguimos para a cidade de Santa Maria/PA. No ônibus a empolgação era mútua entre os trilheiros e, desde minha vinda para o Norte, sinceramente já estava aguardando a chegada das piadinhas de "baiano" que sempre as escuto com muito bom humor, mas desta ainda estou rindo, né Serginho ? Enquanto o sono da manhã me permitiu uma rápida cochilada, ele me perguntou se eu estava rezando o terço. Eu disse: - Terço ? Não entendi. E ele perguntou se eu não sabia como baiano reza o terço. Eu disse que não e aí veio a explicação (piada): - Pega o 1ºmistério e reza: "Pai nosso que estais no céu ….", 2º mistério: "bis", 3º mistério: "bis, … "bis", … "bis", … "Bis", … (rsrsrs). Bom, "Éramos seis", inicialmente para a primeira etapa, mas por um imprevisto e por força materna, uma das trilheiras, Ádila, teve que retornar, pois sua filha estava febril. Fizemos uma oração emocionados, tiramos a foto inicial e de lá seguimos pedalando até Ourém que, segundo dados calculados nos GPS’s dos trilheiros o trecho era, de aproximadamente, 70 km. Então iniciamos a pedalada como um "Quinteto Fantástico" às 9:25 hs (eu, Serginho, Fábio, Neto e Edson). As estradinhas eram lindas, sem movimento, sobe e desce, seixo/cascalho e trechos de areia quando meu câmbio começou a enroscar nos raios a cada mudança de marcha e foi aí que, quando paramos em Taciateua/PA para verificar o problema e desentortar o câmbio, aproveitamos para fazer um lanche (já eram 11 hs), sol já estava alto, prometendo "ilusões solares", quando o Edson perguntou onde iríamos parar para almoçar. Serginho, naturalmente, lhe disse que almoçaríamos só quando chegássemos em Ourém. Edson ficou pálido e a água na boca secou ! - Como ? Mas eu queria comer uma galinha à cabidela … . E aí o papo rolou sobre pratos típicos da localidade mesmo sem a esperança do almoço desejado. Fizemos um lanche reforçado com tapioquinhas, refrigerantes, sanduíches e coalhada. Seguimos o caminho por estradas de terra entre fazendas. O sol castigada cada vez mais e cada parada, fosse para consertar uma corrente quebrada ou encher um pneu, tentávamos parar numa sombra que, por sinal, eram raras. Meu câmbio piorou, as mudanças de marchas eram restritas e assim o esforço a cada pedalada foi maior.

 Após uns 40 km pedalados e com sombras e paradas cada vez mais escassas, eu perguntava ao Serginho: - "Cadê os igarapés ? Preciso de um banho para me restaurar ! E ele respondia: - Faltam 5 km. Tá logo ali com água fresca e peixinhos nadando ! E o Fábio: - Claro que eles estão nadando ! e não voando ! (rsrsrs) … E eu, além de me animar, acreditava. De repente, numa ladeira de seixo/cascalho, o Edson salta da bike, se curva, se joga no chão e grita: - Tô com câimbra ! Eu e o Fábio vínhamos atrás e paramos para ajudar, mas o cansaço falou mais alto e eu tirei a mochila de hidratação das costas e deitei nas pedras quentes para esticar a coluna e alongar, como se estivesse me deitando num colchão ortopédico king box. Enquanto o Edson massageava suas pernas, o Fábio comentou o seguinte: "Alguém tem medo de cobra ? Pois tem uma pequena logo ali". Imediata e discretamente eu me levantei do chão, montei na bike e pedalei me aproximando do Serginho e Neto. … Morro de medo de cobras. Paramos para tirar umas fotos e seguimos até que, alguém viu um poço no fundo de uma casinha na estrada e pedimos à dona para nos deixar tomar um banho. Ela permitiu. Esse foi o banho mais gostoso que tomamos até então. Puxávamos a água com um balde do poço e despejávamos em nossa cabeça. Estava fresca e era potável. Parecia um choque térmico em nosso corpo e nos deu uma "energizada" providencial para continuarmos. O semblante de fome do Edson era tão forte que, ao vermos um pato caminhando e rebolando em nossa direção, ao ver Edson ele se desviou rapidinho. A cena foi muito engraçada apesar de todos nós já estarmos fantasiando, a cada animal visto na estrada ou pastando, um espeto de picanha, leitão à pururuca com uma maçã na boca, galeto assado … noooosa ! … mesmo com o sol derretendo nosso cérebro, nossa imaginação continua fértil ! rsrs.

 Mas neste momento os tão esperados igarapés começaram a surgir e aí descobrimos que o que não falta no caminho são igarapés para banho de água filtrada pelas jazidas de seixo (cascalho) existentes naquela região. Parávamos em cada um deles não somente para um banho refrescante, mas para fotos e apreciar suas águas relaxantes e límpidas além das crianças nativas da região que brincavam e banhavam-se nuas e soltas naquelas águas puras que a natureza lhes proporciona.

 Entre as comparações de percurso de ciclo-computadores e GPS’s iniciou-se as divergências de kilômetros restantes até a chegada à Ourém. Num faltava 7 km, noutro 10, noutro 17 km, mas mesmo contando as margens de erro para mais ou para menos, a kilometragem restante era em linha reta … sendo que a estrada era totalmente sinuosa (ai ai … seja o que Deus quiser … rsrs) … Já eram 16 horas e o sol e o cansaço não amenizavam nossa trajetória. Os incentivos e motivações eram constantes e até trocamos de bikes. Neste momento, passa por nós um ônibus da Prefeitura de Ourém e então pedimos uma carona. O motorista topou na hora. Coloquei a minha bike dentro do ônibus e segui. Além de alguns passageiros que me olhavam curiosos e perguntavam de onde o grupo estava vindo, tinha um cantor que tocava sua viola para animar a viagem. Após 1 km o motorista parou num boteco, deixou os passageiros no ônibus e desceu para tomar "uma dose". Em seguida, o grupo, que continuou pedalando, avistou o ônibus e pararam para saber o ocorrido. Neste momento o motorista veio me trazer uma garrafa de refrigerante bem gelada e eu aceitei na hora. Desci do ônibus e fomos conversar com os outros ciclistas. Foi aí que percebemos que ele estava bêbado. Fábio conversou com ele numa boa sobre segurança no trânsito e me perguntou se eu queria continuar. O motorista disse que faltavam 5 km para chegar em Ourém. Edson ia entrar no ônibus para me acompanhar por medida de segurança, mas com a proximidade decidiu concretizar a pedalada e eu segui de ônibus, com o motorista que, mesmo bêbado e falando ao celular, dirigia bem devagar e me dizendo que para homem ele não dá carona ( ! ). E ainda fez um city-tour na cidade para que eu a conhecesse além de me deixar, gentilmente, na porta da pousada onde o grupo passaria a noite. O cansaço era evidente, mas a fome gritou. Nós cinco ainda saímos pela cidade caminhando à procura de um restaurante aberto para comermos qualquer coisa, mas não encontramos. Então pedimos 2 pizzas grandes que foram entregues no hotel e as devoramos em pouco tempo seguida de uma barra de chocolate como sobremesa. Outros ciclistas já estavam chegando ao hotel para se prepararem para a segunda etapa da trilha no dia seguinte. Depois de um banho e um bom bate-papo alguns foram para cama dormir cedo e outros foram papear e comer um peixe na beira do Rio Guamá.

criado por dimitrivianna    20:44:53 — Arquivado em: Trilhas/Viagens/Passeios

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