17.6.07

Perfil esquisito e divertido !

Guilherme Cavallari - o editor do Guia de Trilhas, ciclista atuante, conta seu passado desvairado: já foi bike courier em Berlim, plantou batata na Inglaterra, quebrou pedras no Egito… Nooooosa ! O currículo do cara não é brincadeira.

Entrevistado por Viviane Fuentes

 

 

Guilherme Cavallari Gomes, nascido em São Paulo, SP, Zona Norte - diz a lenda -, no dia 15 de novembro de 1962. Véio é seu avô !
Fui ator de teatro profissional, radialista, humorista, atleta semiprofissional, empresário aos 22 anos. Mas foi antes, aos 17, que descobri uma vocação: viajar. Fiquei até os 32 anos pulando de país em país.
Vocação Inata: Mudar de Endereço
Quando criança, minha família foi despejada por falta de pagamento de aluguel mais de uma vez, estudei boa parte da vida em escolas públicas, mudava de colégio quase que anualmente, mudava bastante de endereço.
Run, Forrest
Minha brincadeira preferida era física. Correr mais que todo mundo, pular mais alto, nadar mais longe, brigar sozinho contra meia dúzia de crianças mais velhas, qualquer coisa onde eu pudesse gastar minha interminável energia. Lembro que eu nunca caminhava, só corria.
Rodinhas de apoio (traseiras) da bicicleta
Tirei as rodinhas no mesmo dia em que foram colocadas, quando tinha uns seis anos, em São Vicente, litoral paulista, para onde minha mãe se mudou, com filhos e tudo, na casa dos meus avós. Aprendi rápido a andar de bicicleta.
Passageiro Kid
Adorava andar de carro. Que criança não gosta? Mas lembro que os adultos naquela época corriam demais, fumavam dentro do carro com os vidros fechados, os carros eram verdadeiras “carroças”.
Língua do Entendimento
Existe sim uma língua única, não expressa em palavras ou sons. Acho que é a Língua do Entendimento. Quando a gente encontra pessoas com quem nos identificamos, sei lá por que, essa língua se apresenta.
Para quem está perdido o verbo é… “Sobreviver”
Trabalho hoje em algo que me completa, como autor e editor de livros relacionados com esportes de aventura.
Chaminés de Boston
Sinto falta das chaminés de Boston. Sinto falta do calor das lareiras. Por outro lado não sinto falta do frio invernal de nenhum país onde vivi. Vejo hoje claramente a diferença entre o calor do fogo e calor humano, tão presente no Brasil.
Quando quebrava pedras no Oriente Médio eu o fazia para sobreviver, era um trabalho como outro qualquer, digno e duro. Aqui, se eu vier a quebrar pedras seria para atender a alguma demanda específica e não a uma necessidade básica. As pedras seriam muito mais duras aqui.
Competição - pressa para quê ?
Não sou muito ligado em competições de bicicleta. Já fui mais. Corria em provas de Cross Country de Mountain Bike e me diverti um tempo com isso. Mas aí percebi que o que estraga as corridas é a pressa.
Para que pressa se estamos no meio da natureza, pedalando por montanhas maravilhosas, atravessando rios limpos, ao lado de cachoeiras fantásticas?
Acho a competição natural e saudável. O que f. tudo é a síndrome do vencedor, a idéia de que “é preciso ser o primeiro”.
Limites: conhecê-los
O legal não é superar limites e sim “conhecer seus limites”. Tem uma grande diferença entre as duas coisas. Conhecer nossos limites - físicos, psicológicos, intelectuais, de sociabilização, etc - é conhecer importantes facetas de nós mesmos.
Não existe laboratório mais completo para cada ser humano do que nós mesmos.
Tandem: bicicleta para dois. Na tandem, vou sempre na frente, sempre. Inventei até uma regra para a minha tandem: “o dono sempre dirige” - 3º lugar na categoria tandem em 2002 no Iron Biker. Foi bába, só tinham 4 competidores, há, há, há… Mas não foi moleza fazer a prova de tandem. Nada é moleza quando se pedala uma bike dupla em terreno acidentado. O desafio é imenso, a recompensa é proporcional.
Tandem, pra que te quero?
Para transformar em coletiva uma experiência individual. Eu acredito que é na comunhão, nas experiências, que aprendemos mais sobre nós mesmos. O outro é o melhor espelho que existe para nós. As diferenças se encurtam, as afinidades se estreitam. Sou da teoria que andar de tandem é a prova máxima para o sucesso de um casamento.
Desafio coletivo
Ver-se diante da nossa incapacidade de sermos seres coletivos. Não tem frustração maior, eu acho. Fracassamos em duplas sobre uma bike, fracassamos no casamento, na sociedade, como pais, como filhos, etc. Tudo representa o mesmo fracasso: incapacidade social. A tandem pode ser a prova dos nove.
Prós e contras da tandem
Quando perdemos, perdemos em dobro. Quando ganhamos, ganhamos pela metade. Parece ruim? É ótimo.
Bike Courier em Berlim
Minha rotina era ótima: livre pela cidade, conhecendo intimamente ruas e hábitos dos habitantes, fazendo esporte e ganhando dinheiro. Mas pedalar às vezes 180 km em um dia, com chuva, sol, neve, a ventania típica de Berlim, não é fácil.
Serviços de bike courier no Brasil
No Brasil acho que não funciona esse tipo de serviço por um problema puramente econômico. Aqui nós temos um enorme contingente de motoboys, que cumprem distâncias absurdas, longas horas diárias, por salários de fome. Não tem como competir com eles de bicicleta.

criado por dimitrivianna    20:39:04 — Arquivado em: Artigos

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