12.6.07

Texto do Curry

Adoro os textos deste cara !

E no escritório onde trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor” ♪ – Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta

Dentro do carro, sobre o trevo a dez por hora, oh meu amor, estava na estreita rua que dá acesso ao estacionamento do confuso shopping Center Lapa, quando avistei uma banda de rock. Tinha tempo que eu não atualizava meu fotolog e vi ali a chance de fazê-lo. Nesse fotolog que administro, só tiro fotos de pessoas que encontro casualmente na rua com algum instrumento musical na mão. É sempre divertido conversar com essas pessoas. De início, todos acham estranho um cara chegando e dizendo “tenho um fotolog onde só publico fotos de músicos que encontro ao acaso e blá, blá, blá”, todos olham com desconfiança, alguns não conhecem o “mecanismo fotolog”, e a maioria esmagadora recusa pousar para um retrato, ainda mais pra um desconhecido. Porém, com o tempo, aprendi a persuadir. Puxo meu caderninho, minha caneta e:
– E uma pequena entrevista, pode ser?
Aí ninguém recusa. É o milagre da comunicação. O ser humano, por excelência, precisa se comunicar para viver, é a raiz da vida, o verbo. Ainda mais músico (e artistas em geral), que sonha com o dia que vai ser entrevistado e fica, desde sempre, ensaiando as respostas sobre as influências, como começou, o primeiro instrumento… Todos gostam de falar, e muito. Depois do bate-papo, adquiro mais confiança do entrevistado e “pirilimpimpim”.
– Valeu, obrigado – digo estendendo a mão.
– E a foto, não vai ter mais não?
– Ah, vai querer? – finjo surpresa.
– Pode ser – dizem todos.
Ao avistar aqueles roqueiros, vi que seria a melhor das entrevistas. Eram cinco na faixa dos 16 anos, todos de preto, cabelos longos e cada qual com seu instrumento na mão – dois com guitarra, um com um baixo, um cara com uma sacola de pratos e um par de baqueta na mão, e outro sem nada, devia ser o vocalista –, acredito que estavam indo ensaiar.
Na rua que estava, não havia como estacionar, pois já tinha passado da entrada do estacionamento do shopping. Fui em direção à avenida principal onde deixei o carro e voltei correndo para ver se ainda os encontrava. Parei na porta de entrada do shopping e preso no engarrafamento de pessoas que entravam e saiam aos gritos dos ambulantes de “Piratas do Caribe 3, leve agora Piratas do Caribe 3”, fiquei procurando os roqueiros. Não achei. Entrei no shopping, sem rumo, e após o tempo que percebi que eles também não estavam ali, me dirigi para ir embora.
PQP. “Pluct, plact, zum” , cantava Raul na minha mente.
O Center Lapa é um shopping pequeno, mas eu não achava a porra da saída.
Andei pra um lado, pra outro, e nada. Parecia que eu estava preso. O shopping lotado, centro da cidade, véspera de Dia dos Namorados… fui ficando agoniado, precisava sair daquele inferno. Achei um senhor de terno preto, parado, olhando o rio de pessoas indo e vindo descontroladamente.
– Boa tarde, onde é a saída?
Ele desviou o seu olhar para mim, respirou fundo arregalando os olhos e disse:
– Eu me pergunto isso todos os dias. Mas eu acredito que a saída é o amor.
PUTAQUEPARIU.
Ele não era o segurança do shopping.
– Aquele senhor todos os dias vem aqui no shopping, fica olhando, olhando, acho que é doido… A saída é por ali, é só seguir reto à direita – me disse rindo o segurança de verdade. Que não estava de terno preto.
Finalmente consegui sair. A saída era em um lugar onde eu já tinha ido, mas que não tinha visto.
Lá fora, os Piratas da Piedade continuavam gritando desesperadamente “Piratas do Caribe 3, Piratas do Caribe 3”.
Uma menina, aproximadamente 16 anos, que se pudesse se cuidar um pouquinho mais seria muito bonita, berrava:
– Piratas do Caribe 3, Xurec 3 e Homem-Aranha 3, é tudo três.
– Quanto é? – perguntei.
– Cinco – disse ela.
“Campanha de marketing eficaz”, pensei.
– Mas você acabou de dizer que era tudo três – provoquei.
– Não, eu tava falando do filme, que é 3… – disse ela ao mesmo tempo que abria uma caixa com um DVD dentro, me mostrando o telefone da “empresa” com o nome dela, e dizendo em seguida: – Coquer coisa, se você não gostar, você me procura que devolvo na hora.
Sem eu perceber, eu já estava segurando um pitara oficial de Shrek 3.
Consegui devolvê-lo, após mentir, jurando que eu estava sem dinheiro, que iria entrar no shopping para procurar um caixa eletrônico e voltar para comprar meu Xurec 3, por três reais, que foi a pechincha que ela mesma fez.

A publicidade é o inverso do amor por se fundamentar na mentira para atingir o seu objetivo, o desenfreado consumo material de pessoas descontroladas entrando num shopping center. Como o mundo gira em torno da publicidade, tudo no mundo não passa de uma grande mentira. Vivemos mentindo, para os outros e para nós mesmos. Eu tive que mentir pra menina, dizendo que iria tirar o dinheiro, só pra conseguir fugir dali.
E já menti muito mais. Numa agência que trabalhei, entre outras mentiras, tive que fazer um anúncio e um convite para o show de lançamento de um artista baiano. Pedi pra ouvir o CD dele para buscar inspiração e quase me joguei da janela. Porém, fiz um texto convidando a todos, dizendo que o trabalho a ser lançado era espetacular, que ninguém podia ser louco de não assistir aquele show de lançamento e blá, blá, blá… e deu certo, o show deu gente.
O DVD de Ivete no Maracanã custava também cinco reais. Era o mais vendido. Deve ser por isso que ela tá precisando de dinheiro. Faz propaganda de tudo. Iogurte, sandálias, roupa, telefone celular, shopping center, banco… o que aparecer, dizendo para todos beberem, que tudo é lindo. Ou seja, cerveja.
A nossa capacidade de comunicação é o que nos diferencia dos outros animais nos fazendo ser o animal dominante no planeta e nós a usamos maciçamente para enganar e viver num mudo perfeito e irreal, que, como conseqüência, faz o mundo real ser o mundo que vivemos hoje. Acredito que tudo de ruim, todas as guerras, seqüestros, assassinatos, mortes no trânsito, suicídios, frustrações, racismos, poluição, ansiedade… tudo vem pela porta de entrada do mundo mágico da publicidade. E a saída, como disse o doido de terno preto, é o amor.
Na sala de um curso de pós-graduação que fiz (Roteiro para TV e Vídeo), havia um aluno que é um famoso redator de uma das maiores agências de propaganda da Bahia. Premiadíssimo. Dentre os clientes dessa agência, estava a tal instituição em que eu e ele estávamos estudando. Ele foi o criador das peças publicitárias para os cursos dessa faculdade. Colocou nos anúncios algo como “Sinta-se Amado”, numa referência ao nome da faculdade em questão, a Jorge Amado. Mas ele abandonou a pós-graduação logo no começo. Encontrei-me com ele dias depois, num bar:
– Por que largou? – perguntei.
– Ah, não tinha paciência para aqueles professores, eram péssimos, não sabiam nada. Aquela fulaninha não sabe nada de roteiro, aquela outra é pior ainda, e a pós é fraca, a coordenadora não tem experiência e blá, blá, blá…
Redator da porra. Fez um ótimo texto vilipendiando o curso que ele, nos outdoors, revistas e VT’s, dizia ser a melhor coisa em educação. Desconfio de que ele não estava se sentindo amado.

______________
(♪) Paralelas, de Belchior.

criado por dimitrivianna    14:58:29 — Arquivado em: Artigos

1 Comentário »

  1. Comentário por valci barreto — 12.6.07 @ 17:56:29

    Isto não é um texto. É um tratado, no bom sentido. Faço a ressalva porque há cada tratado …deixa prá lá…lições e mais lições se extrai do texto. Vamos ler, ler e ler. Há coisas que no mestrado , doutorado, se não quisermos ou não acharmos uma vaga para ensindar é pura perda de tempo. Que o digam os maiores: Jorge Amado, Pablo Neruda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Machado de Assis e Hemingway, só para citas alguns. parabens a quem escreveu e a quem publicou. valci.

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