27.5.07

Lampião o Mascate Miranda e a Bicicleta 2 Parte

- Você que é o home, falou Virgulino.
- E aí capitão? A gente sangra agora esse peste ou espera pra mais tarde?
- Esperar o quê, home. Vamos logo resolver esta historia.
Lampião veio em direção ao Mascate. Não gostava de vendedores, achava que exploravam o povo, cobrando caro por aquelas bugigangas. Na sua cintura dava para ver o punhal, ainda molhado de sangue fresco.
- Então cabra, qual é o seu nome?
- Minha graça é Miranda Martelo dos Santos.
-E isto lá é nome de homem. Ô Maria, tem um cabra aqui com nome de mulé! Miranda, pode!!!
Maria Bonita que observava tudo e Noa chegadomascate.dava risada de longe, enquanto conversava com sua amiga, Dadá.
- Seu lampião, não me mate, não. Sou homem do bem, sou um simples mascate, um vendedor.
Neste momento Lampião avistou a bicicleta, encostada numa pedra.
- E aquela bicicleta ali, você vende?
- Não, ela é minha, mas… agora é sua!
- Para quer eu vou querer ter um negócio deste. Não serve para andar no meio do sertão.
- Mas posso te ensinar a pedalar, falou o mascate.
- Olha, seu moço! Não sei andar neste treco, não, mas sempre tive vontade de experimentar um, sabe! Se você me ensinar a andar neste negocio eu deixo você ir embora e você segue seu destino, mas se eu me esbuguelar no chão eu te enterro vivo, você com sua bicicleta.
Miranda suou frio, estava em um beco sem saída. Para ficar vivo teria que ensinar nada mais, nada menos que Lampião a pedalar.
- Prometo que o senhor vai conseguir, mas aqui não dá, tem que ser em uma estradinha mais segura.
- Tudo bem, vamos romper mais pra frente. Sabonete! Você vai levando a bicicleta.
Sabonete era o homem que cuidava de Maria Bonita e da comida do Bando.
- Eu vou seguindo aqui com seu Miranda.
- Mas moço! troca esse nome, nem para morrer serve. Imagine que, até pra minha fama de cangaceiro, pega mal matar um cabra com nome de Mulé!
Miranda não conseguiu nem responder aos comentários do capitão.
Chegaram em um descampado, perto da estrada de terra.
- Pronto! Aqui tá bom, disse o Mascate.
Neste momento Maria Bonita foi chegando e disse:
- Virgulino, eu também quero aprender a andar de bicicleta!
- O senhor ouviu o que Maria disse? E pedido dela é uma ordem minha. Vai ter que ensinar nós dois a andar nesse negócio.
- Danou-se, pensou Miranda, agora além do capitão ia ter que ensinar a mulher do homem a pedalar.Tava perdido!
Pensou e lembro de Santa Luzia.
- Prometo não cobrar juros mais baixos se eu sair desta pelega
Miranda pediu para Maria Bonita sentar no selim e com todo o cuidado foi dando as instruções:
- A senhora bota o pé aqui e não se aperrei não, viu! Aqui é o freio pra parar. Aperte com força.
- Tá bom, seu mascate, sorriu Maria Bonita como um criança que acaba de ganhar um presente.
E começou a pedalar, enquanto Miranda equilibrava a bicicleta. Foi a bichinha pegando velocidade e rapidamente Maria Bonita estava pedalando sozinha.
Ouviu-se uma gritaria geral no meio dos cangaceiros. Um sorriso no rosto de lampião mostrou seu dente de ouro.
- Foi bom demais, este negocio é bom demais, Azulão! Disse Maria Bonita. Chama logo Virgulino, ele vai gostar.
- Agora é minha vez, disse Lampião.
- Mas o senhor vai ter que tirar este bando de coisa de suas costas. Lampião tirou tudo, cartucheiras, punhal, espingarda até sua caneca de alumínio.
- segura minha arma, Zabelê!, disse o capitão.
- Agora o senhor senta aqui mas vai devagar, Passando as mesmas instruções que deu a Maria Bonita, Miranda foi guiando Lampião, até que ele também pegasse ritmo e pedalasse sozinho.
Lampião já estava pedalando quando resolveu descer mais rápido, esquecendo a primeira lição de quem está aprendendo a pedalar: não ter pressa. Acabou descendo morro abaixo, perdendo o controle da bicicleta e foi parar no chão, embolando no capim.
Lá de longe seu bando ria sem parar. Nem o sisudo Corisco agüentou com as trapalhadas do capitão.
Miranda pensou: pronto,tou morto. O capitão Virgulino caiu da bicicleta e vai me enterrar vivo.
Lampião levantou-se do chão, pegou a bicicleta e voltou em direção ao grupo. Miranda já rezava, chorando olhando para o céu, pedindo uma intervenção divina.
- Olha, seu Miranda, promessa é para ser cumprida, mas Maria gostou muito deste negócio e eu vou montar de novo e só paro depois de dominar esta danada.
Miranda sorriu, depois de algumas tentativas, quedas e muitas risadas lampião, o rei do cangaço aprendeu a pedalar.
Depois foi a vez de Zabelê, Canjica, Azulão, Cajanara, Sabonete e tantos outros.
O sol já descia na serra quando lampião falou:
- Quando eu parar no Cangaço vou ter umas destas. Pode seguir seu rumo, seu Miranda e leve sua bicicleta.
- Obrigado, capitão.
Já era tarde quando o velho mascate avistou as luzes de Ouricuri. Agora tinha uma nova história para contar na volta para Recife, uma história de cordel.O dia em que o mascate Miranda ensinou Lampião a pedalar.

 

criado por dimitrivianna    18:36:30 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Vânia — 29.5.07 @ 09:44:37

    Que responsa Sr Miranda, instrutor de Lampião e sua turma! Mas vc provou que o esporte modifica as pessoas, e que os butos tb se divertem…

    Valeu Dimitri, uma “história” interessante e engraçada.
    Beijos ,
    Vânia.

  2. Comentário por Vânia — 29.5.07 @ 15:29:03

    Retificação: onde se lê butos, leia-se brutos.

  3. Comentário por Bugarin — 30.5.07 @ 16:05:53

    Bela história com Lampião
    adoro essa história do cangaço e ainda guardo projetio de fuzil surrupiado do museu do IML quando ainda era na velha escola de medicina no Terreiro de Jesus.

    Valeu Dimitri

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