26.5.07
Lampião o Mascate Miranda e a Bicicleta 1 parte
Autoria ; Dimitri Viana

Em 1937, um mascate atravessava o sertão de Pernambuco vendendo panelas, bacias, pequenos espelhos com molduras cor de jerimum, pentes, lenços, linha para costura, tesouras, tecidos e tudo mais que não se achava naquelas terras esquecidas e distantes. Comprava todos os seus produtos em um armazém de um velho judeu perto do Cais do Porto, onde hoje é chamado de Recife Antigo. Depois colocava tudo dentro da sua velha caminhonete Ford e seguia para o sertão. Seu roteiro era extenso, passava três semanas fora, visitando cidades, vilas, fazendas e casinhas perdidas no alto de colinas. Em alguns lugares, onde não tinha estrada e o único acesso era por trilhas de animais, ele tinha que alugar um cavalo ou outro animal qualquer.
Achando que poderia economizar nas suas viagens, resolveu levar consigo sua Brandenburg, uma bicicleta alemã, presente de um amigo que teve de retornar às pressas a pátria natal para defender os interesses de Hitler. Seguiu direto para Ouricuri, cidade encravada entre pedras e mandacarus, no sertão pernambucano. Acordou na manhã seguinte, comeu uma coalhada com sal e seguiu viagem, pois tinha que fazer varias visitas naquele dia. Seu destino era Campinho, uma pequena vila dentro de um boqueirão de difícil acesso. Conhecia o lugar, mas não conseguia entender por que diabos alguém resolveu construir um comercio dentro de um buraco, em um vale tão estreito e distante.
Resolveu testar a bicicleta. Separou alguns objetos e pegou uma garrafa de água. Colocou tudo dentro de um saco vazio de açúcar, depois tirou a bela Brandenburg de dentro de sua Ford, amarrou tudo atrás do bagageiro e saiu pedalando.
Apesar ter ganhado a bicicleta a pouco tempo, sabia pedalar muito bem, sempre pedalava quando era entregador de verduras no Recife, e sua habilidade ficou gravada na memória.
Por um momento vieram lembranças do passado, sentindo aquela brisa quente do sertão, lembrava sua infância. Nada era mais gostoso que pedalar. Não entedia como havia parado de fazê-lo por todos estes anos. A partir de agora aquela bicicleta nazista ia ser sua fiel companheira, nem mesmo Getulio Vargas ia consegui separá-la dele.
Depois de uma hora em uma trilha fechada, passando entre umbuzeiros e lajedos, chegou à entrada do vale. Dali para frente ia ter que empurrar a bicicleta, a subida era íngreme demais. Quando já se preparava para seguir a pé ouviu toque perto de sua cabeça:
- Ô moço, tá pensando que vai pra onde?
Lentamente olhou para traz. Um homem negro da cor de carvão, cabelo encaracolado, usando um chapéu grande com uma estrela no meio, apontava uma carabina para sua cabeça.
- Calma seu moço! Eu sou de bem, disse o mascate.
O homem deu um assobio desses de botar cachorro no rastro da caça. Barulho no meio da caatinga. De todos os lados saíram homens e mulheres, todo armados e usando o mesmo tipo de chapéu do homem negro.
- Qué que tu fazendo aqui, cabeça de lombriga? Perguntou ao mascate.
- Tou de passagem, tou indo para Campinhos.
Foi aí que o mascate começou entender a situação: tinha sido pego por um grupo de cangaceiros. E para seu maior azar não era um grupo qualquer, estava diante do grupo mais famoso de todos: o grupo do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião.
- Canjica! Manda avisar ao capitão que temos visita, gritou o negro Zabelê.
- Senta aí e larga este treco, cabra infeliz, dedo duro, você tem cara de safado.
Minutos depois aparece de volta o cangaceiro Canjica.
- O capitão disse que está se penteando e daqui a pouco chega.
Sentados todos ao pé de uma umburana, o grupo descansava. Tinham acabado de assaltar o vilarejo de Campinhos, para onde o mascate iria vender seus produtos.
- Que azar, pensou Miranda, encontrar o bando de Lampião. Mas no fundo sabia que um dia isto poderia acontecer e este dia tinha chegado.
A sombra de um homem com óculos redondo, cobriu seu rosto do sol: era Lampião.


criado por dimitrivianna
22:34:04 — Arquivado em: