27.4.07
LANCE MUITO MAIS QUE UM CICLISTA ! PARTE 2
Segunda Parte da entrevista da revista GO OUTSIDE com o grande Lance Armstrong!

Em 2005, quando você estava no pódio do Tour, disse palavras duras àqueles que o acusaram de doping. Algo como "Cínicos e céticos presentes aqui, sinto pena de vocês. Vocês não acreditam em milagres". Depois do escândalo da Operação Puerto - que desmascarou um médico espanhol que teria fornecido drogas para dúzias de ciclistas prós, inclusive alguns favoritos do Tour como Ivan Basso e Jan Ullrich, que foram por isso banidos do Tour 2006 - e do teste positivo do norteamericano Floyd Landis quando liderava a prova, por que o público não deveria estar cético e cínico?
É, concordo que fica difícil manter a fé depois da Operação Puerto e de Floyd Landis. Puerto realmente me pegou de surpresa. Nunca achei que fosse ver isso em minha vida. Banir da prova os ciclistas que foram segundo, terceiro, quarto e quinto lugares dos anos anteriores é devastador. Mas em relação à Operação Puerto, ainda estou esperando os resultados. Quais serão as conseqüências e providências? O que eles estão esperando para tomar atitudes mais concretas? A respeito de Floyd, tenho ainda menos certeza do que aconteceu, porque toda a coisa foi muito esquisita. Num dia o teste dele deu negativo, no outro, positivo. No dia seguinte, negativo novamente… Tudo isso vindo de um laboratório francês em que, obviamente, eu não confio.
O que você disse a Floyd quando conversou com ele depois que as acusações de que ele usara testosterona antes do estágio 17 do Tour vieram à tona?
Ele estava dando uma coletiva de imprensa e usava um boné com a aba para trás. Eu disse "Floyd, por favor, tira esse boné". É uma questão de credibilidade. Sua aparência e o jeito que você fala e se comporta, felizmente ou infelizmente, são importantes. Perguntei "Você fez isso?". Ele respondeu "Não". Aí eu disse "Então vá lá e comporte-se como se você não tivesse feito. Porque neste momento é tudo o que você tem. O processo vai levar décadas para chegar a uma decisão". Eu sinceramente espero que Floyd comece o Tour no ano que vem com a camisa amarela de líder e com o número 1 nas costas. Digo isso desde já.
Então você acredita que ele é inocente?
Acredito, por causa da seqüência dos fatos. Por causa do laboratório. Não entendo por que alguém tomaria testosterona naquele dia, especificamente. Não tinha como não ser pego.
Você não se preocupa com os escândalos de doping?
Você tem um incrível legado de sete títulos consecutivos e esse legado se mancha se o esporte como um todo fica sob suspeita. Não passo muito tempo pensando nisso. Eu olho ao redor e vejo meus sete troféus - e ninguém vai tirá-los de mim, porque eles representam centenas de testes de doping, investigações federais, ações jurídicas, tudo aquilo pelo que passei. Esses sete troféus não vão a lugar algum. Meu foco fora do ciclismo também não foi afetado. Quando entro num hospital, você acha que os pacientes se importam com o que aconteceu na Operação Puerto? Não. Eu me importo, porque sou fã do esporte e dono de uma equipe de ciclismo. Mas invisto mais do meu dia pensando sobre as coisas que estou fazendo agora.
Você ficou feliz com sua participação na maratona de Nova York?
O tempo de 2h59min35s não é nada mal para um amador… Fiquei muito feliz. A maratona foi um desafio bastante duro, e que vou repetir em breve. Com certeza correrei em Nova York novamente em 2007.
Você treinou para a maratona com a seriedade com que treinava para o ciclismo?
Não, simplesmente corri. Olhava o meu ritmo de vez em quando, e só. Nada de planilha de 16 ou 20 semanas. Eu estava mais na planilha de beber-cerveja-e-fazer-umamaratona. Ainda bem que não tive que engatinhar [risos].
Você se satifaz em ser um corredor normal, mediano?
Sim.
Então o fato do ciclista francês Laurent Jalabert ter feito a mesma maratona em 2h55min não significa nada para você?
Não me importo. [Pausa.] Eu ainda o venceria na subida do Alpe d’Huez.
Quais serão seus próximos desafios esportivos, além da maratona de Nova York?
Pretendo fazer algumas provas de corrida, outras de bike. Em julho vou participar do RAGBRAI, uma prova de ciclismo que cruza o estado de Iowa, nos EUA. Em agosto, já confirmei presença na Leadville Trail 100, uma ultramaratona de mountain bike de 160 quilômetros. É uma prova dura, com altitudes que vão de 2.800 a 3.800 metros.
E quais são seus planos extra-esportivos?
Tenho um papel na equipe Discovery Channel como um dos donos, e gosto de manter contato com Johan Bruyneel, diretor esportivo da equipe, e com os ciclistas quando consigo visitá-los nos treinos ou competições. Mas o câncer é minha prioridade. É meu trabalho no dia-a-dia. Conseguir livrar a sociedade dessa doença fará sete vitórias no Tour de France parecerem pequenas. Nossa fundação trabalhará para tornar o câncer uma prioridade, e isso tem que começar pelos políticos. Precisamos de pessoas que façam a eles as perguntas que precisam ser feitas, e é o que pretendo fazer este ano.
Com a aposentadoria de Lance Armstrong, quem assume os holofotes da equipe Discovery Channel é o italiano Ivan Basso, 29 anos, com grandes chances de vencer o Tour de France. Basso chamou a atenção de Lance e da equipe em 2002, quando ganhou a camiseta branca de mais veloz ciclista jovem. Desde então teve uma carreira brilhante, ficando em segundo no Tour 2005 e vencendo o Giro d’Italia 2006. Lance está se dedicando pessoalmente ao sonho de Basso de ganhar o Tour. "Sei que Basso quer e pode vencer. Estou dando a ele meu tempo, conhecimento e paixão", disse Lance.


criado por dimitrivianna
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