28.2.07
Ao encontro da natureza
Texto: Dimitri Vianna (5ª parte)

Acordei assustado. Tinha deixado a bike dormir do lado de fora. Corri para ver se estava no mesmo lugar e claro que estava. Quem iria pegar a minha bike ?
Seu Alagoano já havia saído, mas o fogão de lenha estava acesso e tinha um bule de café encardido na cozinha. Peguei uma caneca e fui tomar um "pretinho". Tomei o café e saí para o lado de fora da casa que tinha uma bela vista para a floresta. Abaixo se via o mar de longe. Seu Alagoano tinha sua casa em um lugar muito especial mesmo.
Já estava fora há mais de 24 horas e a esta altura alguém já avisou a policia ou algo parecido, mas dificilmente teriam alguma pista de eu podia estar.
Teria que esperar seu Alagoano retornar para me ensinar o caminho de casa antes de partir. Não adiantaria sair por aí perdido novamente pela a mata. Sentei em um banquinho do lado de fora e pendurei a minha roupa em um varal improvisado, pois estava ainda toda molhada e suja. Aproveitei para dar uma olhada na bike e ver se estava tudo ok .Ouvi barulhos vindo do fundo da casa. Era o velho Alagoano chegando com Stupe. Carregava um bicho grande ao lado. Era uma Paca.
- E aí gringo ! Tá como fome ? Vamos comer uma Paquinha ?
Decididamente meu tempo sem comer carne havia acabado. Não podia ficar vivo ali sem comer aquela proteína.
- Quer uma ajuda ?
- Só se for para comer o bicho. Senta ai que vou cortar um pedaço e colocar no fogo.
Seu Alagoano tinha um bom português para quem morava naquele lugar. Devia ter tido alguma instrução no passado. Achei que aquela história de matador não combinava com aquele homem.
- Qual era sua profissão Seu Alagoano ?
- Fui chefe de volante em Sergipe. Corri atrás de bandido por este sertão afora.
- Então conheceu Lampião ?
- Por pouco não matei o cabra, mas o destino dele foi merecido.
Seu Alagoano contou varias histórias e aventuras de sua vida. De como se livrou de uma emboscada no agreste de Pernambuco, da quantidade de gente importante que ele encontrou quando estava nas capitais do nordeste, etc.
- Tenho uma caixa cheia de medalhas que ganhei. Tá tudo lá dentro.
Depois de ouvir com atenção as histórias imaginárias do velho Alagoano, brinquei um pouco com Stupe. Ele estava tão contente em me ver que peguei um pratinho e coloquei um pedaço da Paca para ele comer. Em seguida comecei a arrumar minhas coisas. Coloquei água da chuva no Camel Back, tirada de um tanque ao lado da casa, vesti minhas roupas de biker e estava pronto para partir.
- Preciso ir Seu Alagoano. Como faço para achar o caminho do rio ?
- Gringo, vou levar você até a margem do rio, mas não deixe de levar um pedaço de carne seca que eu tenho guardado, pois você vai precisar mais tarde.
Imagine se Seu Alagoano precisasse ser vegetariano ?
- Obrigado. Respondi.
Coloquei o pedaço de carne no bolso de trás da camisa e seguimos com Stupe à frente cheirando tudo que via. Seu Alagoano atrás e eu com a magrela ao fundo. Depois de andarmos por uma trilha, sempre montanha abaixo, chegamos perto do Rio de Contas.
- Agora você segue sozinho por aqui e vai pegando "as esquerdas" que você vai encontrar um canoeiro para te atravessar para o outro lado.
Agradeci muito a sua atenção comigo e fiz um convite para conhecer a minha fazenda quando passar lá por perto.
Stupe abaixou a orelha e sentiu que eu estava indo embora.
- Até mais Stupe ! Gostei muito de você !
Segui o caminho da trilha ouvindo o som do rio entre as pedras e quanto mais eu descia, mais ouvia o barulho forte das águas.
Em uma baía encontrei uma canoa pequena. Pequena mesmo. Cabia no máximo duas pessoas. Sentado em uma pedra, havia um homem negro, forte, de bigode e estava me olhando.
- Quer atravessar perguntou ?
- Quero sim. Quanto custa ?
- 10 reais, gringo.
Mais uma vez estava sendo confundido com um gringo e pagando o "preço". Preferi não reclamar.
- Tudo bem. Respondi. Já ia pegando o dinheiro dentro do Camelback quando ele falou:
-Agora a bicicleta fica para ir depois.
- Como assim fica ?
- Não dá para levar junto com a a gente e depois eu volto para buscar.
Uma coisa que procuro seguir fielmente é minha intuição e ela dizia que eu não deveria deixar a minha bike com aquele homem de jeito nenhum.
- Desculpe Seu moço, mas não deixo minha bicicleta com ninguém. Ela á como uma filha para mim.
- Então vai ficar aqui com a sua filha. Não atravesso mais que uma pessoa na canoa.
- Calma, meu senhor. Vamos conversar. Qual o problema em atravessar com a bicicleta ?
- A canoa não agüenta mais que dois.
Estava agora com um dilema. Não podia atravessar com a bike e também não sentia confiança para deixar a minha bicicleta com aquele homem. Tive uma idéia: eu poderia atravessar sozinho com a bike. Então disse:
- E se eu atravessasse sozinho com a bicicleta ? Posso pagar cinco reais a mais !
O homem ficou calado, mas não pensou duas vezes.
- Tá bom. Pode ir, mas deixe a canoa amarrada lá do outro lado.
Tudo parecia resolvido. Só tinha um detalhe: eu não sabia remar e o rio tinha uma correnteza forte. Teria que tomar um curso de navegação em poucos minutos.
- Tem algum segredo para remar nesta canoa ?
- Tem segredo não seu moço ! Basta saber remar. O senhor sabe ?
- Não sou muito bom disso não, mas acho que consigo.
- Se o rio puxar muito você vai parar lá longe e eu não vou poder pegar a canoa !
- Não se preocupe que eu garanto deixar no lugar !
Entrei na canoa meio que sem jeito, coloquei a bicicleta na frente, peguei o remo, empurrei a canoa para água e segurei o remo. Estava agora praticando um novo esporte: o tal do rafting.
A canoa não parava de balançar, mas seguia o leito do rio. A outra margem não estava longe e eu só precisava remar em direção ao barranco aberto em uma clareira do outro lado.
A correnteza insistia em me levar rio abaixo, mas enquanto eu remava contra ela buscando o ponto certo, finalmente aquelas aulas de musculação na academia estavam servindo para alguma coisa. Nada mais entediante que Academia de Ginástica, mas são importantes para quem gosta de aventuras e vive em cidade grande.
Já em terra firme cheguei do outro lado, há alguns metros abaixo do ponto correto, mas não muito longe. Puxei a canoa para a areia da margem e puxei pela areia até o local indicado pelo canoeiro.
Tirei a bike de dentro e vi uma clareira com uma trilha de solo firme. Finalmente iria voltar a pedalar ! Montei na bike e segui na trilha cercada de grandes árvores. As sombras aliviavam o calor e voltei a sentir o prazer de pedalar rapidamente ao som de periquitos e outras aves. Passava entre a mata, trilha adentro. As vezes com pequenas subidas, mas estava claro que meu destino era em direção ao mar . Estava indo para o litoral levado pelo vento.
De repente uma ponte de madeira. Na verdade um tronco de madeira com abismo abaixo. Peguei a bike, coloquei no ombro e atravessei sem problemas. Quando ia montando na bike de novo, ouvi barulho de moto-serra. Estavam cortando madeira em algum lugar. Seu Alagoano estava certo: estão acabando também com a reserva. Mais a frente uma grande clareira e dei de cara com um homem segurando uma moto-serra.
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Participe do manifesto para coleta de assinaturas para reivindicarmos aos órgãos competentes termos acesso com nossas bikes dentro de outros meios de transportes como ônibus e Metrô !
Acessem: http://mundodabike.blog.terra.com.br/abaixo_assinado_em_prol_do_transporte_da


criado por dimitrivianna
21:52:29 — Arquivado em:
Comentário por Taty Paiva — 3.3.07 @ 13:36:36
Pô Dimitri, me interessei pelo final da sua história. Continue viu?? Vc encontrou o cara com o motor serra e a�? Bjos