27.9.06
O imaginário da derrota - 3ª parte
Kátia Rubio
Universidade de São Paulo – USP-SP
Para compreender melhor este artigo recomendamos a leitura da 1ª e 2 parte postada no Blog há alguns dias atrás. Este artigo será dividido em 04 partes.

A derrota como sombra social
A dificuldade que protagonistas do mundo esportivo e teóricos têm de lidar com a derrota talvez resida na posição que essa condição assumiu na cultura contemporânea ocidental. Fincada em um modelo de rendimento-premiação no qual não apenas ganhos materiais estão em questão, mas também o reconhecimento de um feito que garante a imortalidade, é possível dizer que a derrota é a sombra social do esporte contemporâneo. Entende-se por sombra os elementos do psiquismo individual e coletivo que incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram elaborados levando-os a se unirem ao inconsciente, o que os faz agir de maneira relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. Dessa forma, assiste-se a uma afirmação do imaginário heróico no esporte contemporâneo, não por sua proximidade com a superação de limites, mas pela identificação unilateral com as proezas reconhecidas e justificáveis de pessoas consideradas sobre-humanas.
Essa é uma das razões que leva Christlieb (2004) e Delattre (2001) a afirmar que o jogo acaba quando começa o esporte, porque o esporte já não é um jogo, senão uma função, isto é, ele já não serve para jogar, senão sempre para algo mais: ganhar dinheiro, ser famoso, vender produtos, impressionar incautos, ganhar espectadores, ver-se saudável, fechar negócios ou entrar em um círculo social. Todos esses atributos valorizam e enfatizam a necessidade de reconhecimento e destaque social.

Os valores promovidos por uma grande parcela da sociedade ocidental contemporânea estão baseados na excelência e na motivação individual e social voltadas para a produção. Essa forma de vida facilita o desenvolvimento de um modelo esportivo que prepara crianças e jovens para o sucesso em uma vida altamente competitiva e desenvolve valores morais como a perseverança, o sacrifício, o trabalho árduo, o cumprimento de normas, o trabalho em equipe e a auto-disciplina. Entretanto, esses mesmos valores são responsáveis por muitos problemas éticos encontrados no esporte, entre eles a glorificação dos vencedores e o esquecimento dos derrotados. No esporte isso tem levado a uma desumanização do atleta e à sua alienação (Bourdieu, 1993; Eitzen, 2001; Gonzalez, 1997).

Quando abordamos o esporte competitivo lidamos com pessoas que passaram a maior parte de suas existências envolvidas, por vezes, exclusivamente com uma vida de treinos e competições. Embora a vitória e a derrota façam parte do repertório do atleta, aquele que conseguiu chegar em um nível de representação nacional, certamente experimentou muito mais situações de vitória do que de derrota. E reforçando uma máxima de que sobre a vitória não é preciso elaboração, os momentos de derrota são sempre tidos como próprios para avaliar erros e refazer planejamentos, levando atletas e equipes a se considerarem duplamente punidos.
Para Ferrando, Otero e Barata (1998) uma vitória não é idêntica a uma experiência de êxito, e uma derrota não é em si, uma experiência de fracasso. As experiências de êxito aparecem quando o rendimento esperado foi alcançado ou superado. As experiências de fracasso se encontram na diferença negativa entre o resultado esperado e o resultado obtido.
Nem toda preparação física ou mental, a partir de treinamentos extenuantes, nem a utilização de conhecimentos científicos, ou o desenvolvimento de materiais feitos a partir de avançada tecnologia, muito menos o uso de substâncias dopantes, dão a certeza ao atleta da garantia da vitória. "Saber perder" é uma das características que se atribui ao "estilo esportivo", embora seja mais uma força de expressão do que uma disposição efetiva.
Assim, a derrota pode levar o atleta a desenvolver dois tipos de condutas: ou provoca o abandono da vida competitiva ou produz um fortalecimento de atitude. Afirma Cagigal (1996) que das derrotas, do sentimento de inferioridade derivado delas, quando não cristalizam em frustração permanente, se produz na reorganização de forças pessoais; e aí está o princípio da superação. "A derrota superada significa enriquecimento da pessoa. Em uma personalidade preparada, esta antítese desencadeia novas energias, descobre inusitadas habilidades, abre horizontes, ordena uma reestruturação de mecanismos, enriquece as diferenciações, de todo o qual sai a personalidade fortalecida" (p.844).
As pessoas que defendem os benefícios do esporte no desenvolvimento do caráter afirmam que os atletas aprendem a superar obstáculos, a cooperar com os companheiros, a desenvolver autocontrole e a persistir diante de derrota. A prática esportiva surge como um espírito de superação de limites e esta atitude é considerada como um ideal positivo para a formação dos indivíduos; daí a importância do esporte como agente socializador. Cagigal (1996) amplia essa discussão ao afirmar que "saber perder" e, como perspectiva educativa, "ensinar a saber perder" não significam necessariamente derrotismo nem fatalismo. Para o autor, "os verdadeiros triunfadores na humanidade não são sempre vencedores, mas sim os que têm assumido plenamente sua condição humana"


criado por dimitrivianna
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