25.9.06
O imaginário da derrota - 2ª parte
Para compreender melhor este artigo recomendamos a leitura da 1ª parte postada no Blog há alguns dias atrás. Este artigo será dividido em 04 partes.
Autoria: Katia Rubo

No primeiro caso esse sistema abrange todos os esportes competitivos, que na acepção clássica do esporte moderno cabia aos amadores, mas que no presente momento é representado pelos atletas profissionais. A elite é formada pelos indivíduos selecionados pela ordem de excelência, separados esses por pequenas frações de tempo ou distância, que já não podem mais ser mensuradas a olho nu ou cronômetro manual. A necessidade de uso de equipamentos sempre mais precisos sofistica a prática esportiva e a competição, favorecendo a organização da incerteza imposta ao público espectador, afirmando uma condição de espetáculo de massa. Nesse sistema os rituais são esperados e se multiplicam para atender a necessidades de competidores e público, tornando-se uma liturgia de identificação. Portanto, incerteza e identificação são as condições básicas para o desenvolvimento da competição contra o outro. Isso quer dizer que pode não prevalecer a justiça, na medida que a melhor equipe pode não ser a vencedora por causa de um mau desempenho do atleta, por erro de arbitragem ou por falha de equipamento.

O segundo sistema, a competição contra si mesmo, compreende uma espécie de luta privada, íntima, onde o competidor é também seu juiz. Nesse sistema não há divisão de classes ou limite. Isso porque o limite de esforço desprendido para a realização de uma prova varia de indivíduo para indivíduo, impondo ritmos e realizações distintas aos diversos competidores. Isso quer dizer que se por um lado existe uma aparente igualdade entre os seres humanos, há uma desigualdade constitucional que leva uns à vitória e outros não. Nesse sistema a técnica essencialmente individual e privada de competição consigo mesmo demanda recursos de uma espécie de elevação individual, fincada grandemente na cultura ocidental contemporânea. Encontram-se nesse grupo as modalidades esportivas como as provas de longa distância no atletismo, as marchas, maratona, iron man, enduros e ski, desenvolvidas a partir dos anos 1970, como atividade de tempo livre; a musculação, as várias modalidades de ginástica e as atividades de resistência que não implicam necessariamente competição, e portanto, a vitória sobre alguém.
No contemporâneo, a superação de marcas é um feito grandioso, merecedor de ampla divulgação pelos meios de comunicação de massa para todo o mundo. Muitos recordes que foram conquistados no início do século XX e considerados imbatíveis têm sido superados, ao longo do tempo, por aquelas consideradas, nos primórdios dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, como incapazes de realizar feito esportivos: as mulheres. Estas marcas são quebradas quase todos os meses em alguma prova, e em qualquer modalidade esportiva. Uma das grandes motivações de qualquer atleta que participa hoje de importantes competições nacionais ou internacionais está não somente na vitória, mas justamente na luta pela conquista do recorde.

Esta busca incessante pelo sucesso e pela superação dos recordes pressupõe, de maneira assertiva, uma evolução material da sociedade e física do atleta. Nos treinos diários o atleta busca a perfeição técnica, tendo em seu auxílio os estudos científicos sobre o movimento humano; já os fabricantes de materiais e equipamentos esportivos lançam no mercado produtos inovadores a intervalos cada vez menores. O mesmo se pode dizer sobre a evolução nas técnicas de construção de instalações esportivas. Sendo assim, o recorde é o resultado de alguns fatores que se combinam, num mesmo momento, a plenitude técnica do atleta e o aprimoramento dos recursos materiais que estão ao seu alcance. Ou seja, o conjunto de fatores físicos e mentais, aliados à técnica e à tecnologia, contribuem indefinidamente para a construção de uma situação vitoriosa.
Brohm (1993, 1995) avalia que essa lógica de valorização extrema do resultado esportivo é uma construção ideológica que circula por meio de impacto midiático, e que as instituições esportivas absorvem uma boa parte das tendências mortíferas e suicidárias dos indivíduos de uma sociedade em crise prolongada, uma crise que é ao mesmo tempo econômica, espiritual e ideológica. Essa violência suicidária que se manifesta de diversas maneiras advém de uma mesma matriz axiológica e praxeológica: a competição de todos contra todos, a busca infinita pelo recorde, a busca incessante da superação de limites, o culto do excesso, o fetichismo do progresso de performances e a idolatria do êxito a qualquer preço.
Do perder ao ser derrotado
A prática esportiva surge como a essência do espírito de superação de limites e este estímulo tem sido amplamente explorado para os mais variados fins, a depender do apelo que a imagem de um protagonista, como o atleta, exerce sobre a população. A exploração dessa imagem tanto pode estar relacionada com a venda e comercialização de inúmeros produtos como pode também estar associada à campanha de caráter pedagógico ou social. Mas para isso, no entender de grande parte dos dirigentes e empresários, o atleta tem que ser antes de tudo um vencedor, e conquistar essa condição não é tarefa assim tão fácil.
Cagigal (1996) afirma que os Jogos Olímpicos são a visão sintética, em grande e aparatosa escala, do esporte do mundo. Neles desponta grande parte dos ídolos esportivos consagrados por suas vitórias. Entretanto, o autor prossegue sua reflexão com uma dúvida: E todos aqueles que participam e não vencem são de fato derrotados? A resposta sugere que a agonística e a luta estão presentes nas mais variadas formas de competição e que a vitória pode não ser apenas a conquista do primeiro lugar.
Ideal da sociedade atual, o vencedor é lembrado e valorizado pela suplantação do outro, independentemente dos recursos utilizados para esse fim (Rubio, 2002). Ao derrotado restam a vergonha pelo objetivo perdido, a confusão com a incapacidade e a falta de reconhecimento pelo esforço realizado. Diante do resultado obtido e comparando-o com o desejado, é compreensível o sentimento de frustração, raiva ou talvez decepção do atleta quando ele não consegue atingir seu objetivo. Se a competição na atualidade remete à necessidade da vitória como afirmação de superioridade sobre o adversário, vale ressaltar que não se pode pensar em competição nem vitória sem a presença do oponente. Ainda que a atenção de atletas e técnicos esteja focada na superação de marcas e tempos, o que se vê é a necessidade imperiosa de suplantar aquele capaz de promover sua própria frustração, estado esse manifesto na situação da derrota.
Autores como Miah (2003), Proença, Constantino (1998), Rodriguéz (1987) e Mariovet (1998) defendem os benefícios do esporte no desenvolvimento do caráter e afirmam que os atletas aprendem a superar obstáculos, a cooperar com os companheiros, a desenvolver autocontrole e persistir diante de derrota, tornando-se por isso, em muitos casos, um referencial de projeção de identidade, principalmente entre jovens e adolescentes.


criado por dimitrivianna
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