25.9.06

Atribulações de 1 bike inglesa no Rio Vermelho

Autoria: Eduardo Monaco

As atribulações de uma bike inglesa nas ruas do Rio Vermelho

De tanto pesquisar sobre o tema bicicleta fantasma (Ghost bike), movimento internacional a favor de mecanismos que incrementem um maior nível de segurança para os que pedalam e dividem principalmente o espaço urbano com os veículos automotores, acabei sendo vítima de um pesadelo que me deixou um tanto perturbado, mesmo depois de haver despertado e reconhecido que tudo não passara de um mero sonho.

Aí vai então, o que Morfeu me aprontou.

                 

Aos 16 anos de idade troquei um rádio receptor “Philips”, alguns long plays de Elvis Presley, Chuck Berry e Bill Haley and his Comets e uma canivete suíço por uma bicicleta Raleigh, made in Nottingham-UK, totalmente desmontada e embalada numa velha caixa de cerveja Müchen Extra. Essa bike havia sido de propriedade do meu vizinho, que recebera como parte integrante do seu formal de partilha, oriundo do inventário do seu falecido pai.

Com o suporte técnico de um mecânico de geladeiras, também ciclista militante, montei a bicicleta, substitui as suas câmaras ressecadas pelo tempo, lubrifiquei a sua corrente e dei início ao que mais tarde eu escreveria como “As atribulações de uma bike inglesa nas ruas do Rio Vermelho”.

Aqueles que provavelmente me invejavam por deter a posse de tão renomada bicicleta, jamais souberam dos percalços que vivenciei por haver ousado ressuscitá-la. Bem que eu deveria ter respeitado o seu sono eterno, aprisionado naquela inusitada urna mortuária, assim não teria despertado o espírito perturbado do seu primitivo proprietário.

Logo nas minhas primeiras pedaladas com a Raleigh, percebi que algo estranho jazia sobre a sua estrutura magrela. Os extenuantes impulsos das minhas perninhas de saracura mal permitiam imprimir uma velocidade suficiente apenas para mantê-la em equilíbrio. O meu esforço físico era tanto que me passava a sensação de estar atrelado a um carro de boi repleto de granito. Sucessivos e ineficazes desmontes e remontes, seguidos de lubrificações repetitivas nas suas mais íntimas partes abortavam a minha esperança de fazê-la rodar nos padrões de qualquer outra bike.

Havia nas proximidades do local onde eu morava (Rua Alexandre de Gusmão), um coronel da polícia reformado que era um dublê de policial e pai-de-santo (coisas da Bahia) a quem consultei em desespero e com a expectativa de que houvesse uma explicação para aquilo que eu qualificava como sobrenatural. Coronel Salustiano, ou melhor, Pai Salustiano, recomendou-me levar a bike ao seu terreiro para uns passes, talvez umas rezas e se a renitência continuasse, para um “trabalho”. Não deu outra, o tal do “trabalho” necessariamente deveria ser realizado. Na lista que ele me passou continha um frango, farofa de dendê, uma garrafa de cachaça, charutos e tantos outros itens que escapam da minha memória.

Na encruzilhada da Rua Conquista com a Rua Itabuna, bem ali no Parque Cruz Aguiar, Pai Salustiano e eu fomos arriar a oferenda. Era meia noite e quinze. Enquanto arrumava o presente no chão de massapé vermelho, na confluência das ruas, o pai de santo engolia pelo gargalo, goles da cachaça Jacaré, aspergindo sobre a vela acesa, parte da aguardente que havia despejado na sua bocona avermelhada. O fogo da vela se assanhava e se transformava por alguns segundos em enormes labaredas, parecendo mais um vulcão. Tudo aquilo me deixou perplexo e quase arrependido por haver contratado os serviços espirituais do maluco do coronel. Mas a Raleigh valia aquele sacrifício.

Durante o retorno para cada uma de nossas casas, permaneci calado, mas Pai Salustiano resmungava e gesticulava como se falasse com alguém o tempo todo. Tudo era muito incompreensível para mim. A sua voz se tornara rouquenha e acompanhada de um estalar de língua esquisito. Afinal cheguei à porta de casa e apressei-me a entrar, nem mesmo me despedindo do macumbeiro. Quase não dormi naquela noite!

O dia amanheceu e a lembrança do estranho ritual se instalara na minha mente. Tomei um café apressado, no afã de experimentar eventuais efeitos que o despacho teria exercido sobre a minha bicicleta. Levei a bike até a porta de saída, passei a perna sobre o seu quadro, acomodei-me no selim e iniciei a pedalada, ladeira acima da minha rua. Cruz credo! A bicicleta subiu a ladeira numa rapidez disgramada, parecia que tinha um foguete no rabo; quebrou a direita, desceu a Ladeira do Papagaio, virou a esquerda, atravessou a pista da Vasco da Gama e tomou a direção do Parque Cruz Aguiar, tudo numa carreira desembestada! Afinal parou por ela mesma, sem me dar a chance de imprimir os seus freios, exatamente naquela mesma encruzilhada que arriei o trabalho. O lugar só era cinza e carvão, como se alguém houvesse armado ali uma fogueira. A mim me pareceu que o presente fora bem aceito, pois não havia qualquer remanescente entre os restos do pequeno incêndio. De repente uma catinga de enxofre empestiou a bifurcação das duas ruas…e uma risada, uma enorme gargalhada ecoou por todo o bairro. Arrepiado dos pés à cabeça, meti o pé no pedal e desgracei-me de volta à minha casa. O coração só faltava sair pela boca e eu só dizia “Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria”. Apoiei o guidon da Raleigh no portão da entrada de serviço, sentei na beira do passeio e procurei arrumar as idéias. De repente me dei conta que de que Pai Salustiano era mesmo um retado!

criado por dimitrivianna    22:35:07 — Arquivado em: Artigos

1 Comentário »

  1. Comentário por valci barreto — 26.9.06 @ 08:28:56

    senhor eduardo, o senhor BOTA PRA QUEBRAR. Parabéns por mais este texto maravilho. Coisa de genial escribiker.

    cicloabraços,

    valci.

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