29.8.06
VIVI, A CAPRICHOSA ( Uma garota e sua bicicleta…
Autoria Eder Giovani Savio
Um texto de um Biker do DH dow hill !

Paredes cinzas, quentes e úmidas. Escuros irritantes, inconvenientes e irremediáveis: a lâmpada, forte, sem lustre, concentraria a luz amarela agressora em um único ponto, arremessando aos olhos estilhaços impertinentes da incandescência de resistência elétrica; a janela, se aberta, escancararia um sol ardido violento, capaz de arrancar a parca umidade protetora e refrescante que salva a pele do dia que já se abafa ao amanhecer, no quarto escuro os fantasmas reinaram a noite toda nos sonhos já quase esquecidos da menina, e agora são expulsos pelas buzinas malcriadas, pelo motores doentes, pelas freadas histéricas. Vivi jamais poderia lembrar o sonho, pois o sonho, no final, misturar-se-ia à realidade sonora: buzinas e freadas. Apenas um temor angustiante e inexplicável, tão comuns nessas ressurreições matutinas, lhe abateu, como se previsse algo ruim, um pessimismo generalizado, insinuando que tudo contra si conspirava. Melhor levantar e enfrentar o dia.
Afinal, quando decidiu abrir a janela em detrimento da lâmpada de cem watts, Vivi não achou o sol tão ruim assim. Tomou banho gelado em seu abrigo íntimo revestido de cerâmica branca, acariciou-se sob o pretexto de se limpar e depois sem pretexto algum. Tomou café, ou melhor, leite longa vida com papaya. Leu jornais no computador, checou em vão novos e-mails. Manhã linda, até já se apagara o temor dos lençóis.
Resolveu passear na ciclovia da avenida beira-mar. Tênis branco, shortinho, blusinha azul, rabo-de-cavalo, óculos escuros e disc-man. Deslumbrou-se sorridente diante do espelho de corpo todo. Havia uma leve e tênue capacidade translúcida em seu shortinho branco; observando com boa vontade, talvez se pudesse vislumbrar o negro dos pêlos. Que delícia andar a vontade em Floripa! Essa frase repetia toda vez que saía de bike.
Desfilando lépida sobre o tapete de concreto desenrolado entre os automóveis desvairados e o mar, sentia-se radiante com o bem estar de seu corpo, com a consciência do prazer causado pela atividade muscular, com o bom humor característico de quem sente a vida de bicicleta. Bom humor que lhe exprimia alegrias indefectíveis do azul soberbo do céu sobre os prédios repletos de luz, sobre as montanhas cravejadas pela madeira enegrecida dos barracos, dessarte luminosas também, graças ao sol da manhã primaveril e à endorfina usada para camuflar as dores do esforço.
Um sorriso, outro e outro, algumas vezes grosseiros, de canto de boca torta, mirando nas coxas, nos seios duros e dinamizados pela trepidação, depois nos olhos azuis de Vivi. Todos a excitavam e lhe energizavam ainda mais. As pernas sentiam mais e mais vontade de pedalar, de flertar, de fazer amor. Uma hora pedalando e não sentia cansaço, queria voltar, quiçá cruzasse novamente com o rapagão sorridente com cara de propaganda de creme dental. E voltou, o encontrou, detectou seu sorriso e o retribuiu olhando para trás. Mas, como se distraíra, atravessou direto o cruzamento, invadindo a arena negra dos automóveis.
O carro vermelho a sua frente, com seus olhos-faróis, parece um animal assustado, melancólico e apreensivo com o desfecho do encontro. Vivi imagina quatro ou cinco possibilidades de trajetórias e manobras que o carro poderia usar nesses três metros que a separam da morte. Ela estancara sua bike com o susto, pensou em pular para a frente ou para trás, mas suas pernas não têm força suficiente para impulsionar sessenta quilogramas a dois metros em um quinto de segundo. Esse quinto de segundo permite duas substanciais reflexões, ou melhor duas sucessões poéticas pré-adeus: no primeiro décimo vê o braço do rapaz esticar-se lentamente, gritando em câmara lenta, vê o movimento da boca e dos olhos de seu flerte horrorizado, enquanto ouve pelos fones do disc-man um ou dois acordes de Vivaldi que lhe soam e lhe afetam como se fossem uma sinfonia completa repleta de significados sobre a vida, sobre o cosmo, sobre o amor. No segundo décimo a morte está a um metro e meio, arrastando-se em sua direção com as rodas travadas. Pensa em pensar algo importante antes de morrer, em ver o famoso filme da despedida, em julgar a si mesma e se arrepender, em menos de um décimo de segundo, de todos os erros cometidos, de todos os perdões não aceitos e não ofertados. Mas não pensa em nada disso, só pensa que tais pensamentos talvez não existam, talvez ela não seja capaz de os ter ou apenas ainda não esteja preparada para morrer e ponderar sobre a vida. No vigésimo de segundo restante deixa de ter consciência sinestésica, a lata do automóvel gentil colhe seu corpo e o cospe da bike, formata seus braços, pernas e tronco ao capô e lhe projeta ao alto. Em sua viagem aérea ainda vê uma última imagem: o capacete esquecido sobre a mesa. __ Me fodi! E desmaia antes de chegar ao chão.


criado por dimitrivianna
08:06:21 — Arquivado em:
Comentário por sissa — 9.9.06 @ 20:32:12
Olá. Faço parte da BikeOnList, a maior lista de ciclismo da América Latina. Mandei seu conto pro pessoal. Muito maneiro!!!