Texto: Itana Mangieri

Itana: - Lu, Dimi convidou pra passar o São João no sítio, mas eu só posso ir se for na segunda-feira depois do almoço e eu não to a fim de ir sozinha – 450 Km é muito longe…
Lu: - Zena e Sophia vão viajar e se eu ficar aqui vou ficar sozinha, então vamos juntas.
Itana: - Você sabe o caminho ? Vamos pela BR 101 ou pelo Ferry-boat ?
Lu: - Vamos pela BR101 pois a fila do Ferry vai nos atrasar muito. Eu fui em Maio da ultima vez para Itacaré e sei o caminho.
Itana: - Então tá ! Na segunda a tarde eu te pego na casinha de Pituaçu e seguimos.
Lá vem a segunda-feira …
15 hs liguei pra Lu e avisei que estava liberada e indo buscá-la. Arrumamos as malas, as bikes e o kit-Lu no carro (Obs: Kit-Lu = caixinha de isopor com algumas latinhas de cerveja geladas).
16:10 hs saímos rumo ao nosso São João no sul da Bahia.
Na BR324 sentido Feira de Santana estava tudo bem até que o trânsito parou próximo de Candeias. Respirei fundo e lembrei do engarrafamento no São João do ano passado onde no trecho Salvador X Feira de Santana levou-se 8 horas para completar os 100Km iniciais. Mas devagarinho, andava-se. Fomos conversando no carro, ouvindo música e eu questionando Lu por não ter colocado umas latinhas de coca-cola pra mim no isopor, mas ela prometeu que a cada cerveja que tomasse, sobraria uma “vaga” para que, no primeiro posto, ela completasse com minha coca-cola. Comentou também sobre comprar alguns artesanatos na estrada na volta e um conjunto de mesa e cadeirinhas dobráveis, blá blá blá blá ……. e, nisso anoiteceu !
Quando pegamos, à direita, na entrada para a BR 101, Lu falou: - “Siga em frente. A vida toda”.
Eu: - Mas Lu, eu acho que temos que fazer o primeiro retorno.
Lu: - “Nada disso. Eu conheço o caminho. Passei aqui em Maio. Siga em frente a vida toda”.
E eu segui. Começou a chover, estrada esburacada, muitos caminhões e, depois de uns 50Km começaram as placas de Aracaju e Alagoinhas. Uma, duas (hummmm….) e na terceira eu disse: - Lu, nós estamos indo para o norte e Serra Grande é no sul da Bahia. Essa cidade aí na nossa frente é Alagoinhas.
Lu – “Imagina !”
Aí eu apontei a placa à sua direita: “Bem vindo à Alagoinhas”
………….. (sic ! momento de silêncio fúnebre) … Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk … Tivemos uma crise de risos e lágrimas.
Seguimos adiante até o primeiro posto de gasolina da cidade para fazer xixi, reabastecer e comprar a minha coca-cola … kkkkkk.
E a parada foi divertidíssima. Estacionamos ao lado de uma Van preta com insulfilme escuro, desenhada com labaredas amarelas e decorada com bonecos, baratas, ratos e com adesivos curiosos como: “faço sexo de graça” (e com o telefone do proprietário) / “te vejo no inferno”, etc. Nesse momento, todos os curiosos fotografavam a Van enquanto o proprietário estava no banheiro raspando o cabelo (??? … rsrs). Não tivemos a surpresa de conhecê-lo, mas fomos pedir a um caminhoneiro que nos deixasse fotografar seu caminhão, pois era do sul do Brasil com o sobrenome de Zena desenhado na boléia – TOMIO!.
Liguei para Dimi para avisar que nos atrasaríamos e o mesmo não acreditava no nosso “desvio” e ainda nos chamou de loucas. Depois ligou pra Lu preocupado porque nós íamos chegar tarde e estava preocupado porque eu sou dorminhoca e ele achava que eu podia dormir no volante (… rrrrrr … não gosto que me desafiem … rsrs … além do mais, eu já tinha me prevenido levando chicletes ardidos de menta para mastigar na estrada e espantar meu sono).
Retornamos, agora no sentido correto, rindo feito duas babacas e planejando comprar um GPS.
A viagem foi tranqüila, mesmo com Lu implicando porque chamei o segurança de um posto de gasolina, onde paramos para fazer xixi, de “tio”, pois ela acha isso uma ofensa e coisa de gente careta do nordeste. Chegamos no sítio + ou – 2:30hs da madrugada. Como Dimi abriu um restaurante no sítio, logo na entrada haviam plaquinhas dos pratos do cardápio: muqueca, catado de siri, aratu, lagosta, etc … Lu logo se empolgou com água na boca e eu pensei: “ Nossa ! Eu dormi mesmo no volante pois já estou sonhando com comida!”. Estacionei e ela não queria que eu buzinasse para não acordar o caseiro e nem Dimi (???) … Mas como ? Ainda mais com um dos cachorros de Dimitri latindo pra nós ao lado do carro. Dessa vez uma PittBull branca !!! Então, como nenhuma das duas ia encarar a pittbull, dei uma buzinadinha de leve e Dimi veio nos receber junto com Cris. Torto de sono e de cueca … kkkk.
Nos cumprimentamos e fui logo me acomodando numa cama, pois a sensação de sono era a de ter mastigado o chiclete de menta com as pálpebras !

As 7hs Dimitri nos acordou, tomamos café e fomos pedalar eu, Lu, Dimi e Cris. Deixamos o carro lá em Serra Grande e seguimos pela nova trilha-tour tão anunciada que Dimi preparou para recepcionar os amigos. Não posso deixar de mencionar que ele é nosso ciclo-bandeirante, pois abrir trilhas ciclísticas é uma especialidade nata dele. Adentramos por sítios e mirantes com paisagens deslumbrantes (a perder de vista) mesmo com o tempo meio nublado. Toda hora ele dizia que a trilha era light … com subidas por singles tracks de até 45 graus, de mata fechada e escorregadia por causa da chuva inicial … ele só esqueceu de dizer que era “light” para os Dino-Bikers … rsrs, mas que vale a pena, mesmo no estilo Jabuti ou Empurra-bike … hehehe. Adentramos a Reserva do Conduru já debaixo de chuva, com lama e o cheiro forte de mato purificando nossos poluídos pulmões urbanos … Ainda fomos conhecer um sítio onde os proprietários criam um caititú (espécie de porco-espinho do mato) solto no quintal. Ele é até bem sociável e curioso com seus novatos admiradores !

Em seguida ainda encontramos alguns cachorros no caminho que não mediram esforços nem timidez para brincarem conosco !
E para terminar a trilha-tour de Dimitri não poderíamos deixar de parar no mirante da ladeira de Serra Grande, mesmo debaixo de chuva, para registrarmos nossa foto dos 4 porquinhos ecológicos – estávamos elameados até a alma!
Finalizada esta trilha-show, eu e Lu paramos num posto de gasolina para abastecer e os frentistas ficaram curiosos com a aparência de duas pessoas enlameadas dentro do carro (???). Na descida da ladeira, resolvemos passar na Cabana da Empada, pois a fome deu sinais estomacais de broca (hehe). Ao entrarmos, dois clientes arregalaram os olhos assustados. Já fui logo alertando:
- Calma ! Não é nada disso que estão imaginando. Não somos mendigas. Só estamos sujas de lama !
Eles riram e Lu já foi logo pedindo sua gelada e eu escolhendo o sabor da empada no cardápio. Um dos clientes ainda bateu um papinho rápido e simpático conosco e foi embora e nós continuamos saboreando as deliciosas empadas. Por coincidência, na semana passada, saiu uma matéria sobre a Cabana da Empada de Serra Grande na revista Muito de Salvador. No Brasil, não sei por falta de “provas” … rsrs, mas aqui na Bahia não existe empadinhas mais gostosas que essas !
Retornamos para o Sítio Paraíso para um banho. Dimi já estava lavando as bikes e Cris na organização da festa junina (eu já vi mulheres trabalharem sem parar, mas esta Cris … estou pra ver igual … ela parece ter rodinhas no pé e energia vazando).
Enquanto isso, Lu resolveu soltar a jornalista encubada dentro dela e saiu pelo sítio filmando e relatando todas as atividades para a preparação da festa e a beleza do sítio. Já no finzinho da tarde fomos para a praia brincar e fazer um pega na água com Pitty (bull).
Com tudo já preparado para a festa, noite estrelada e fogueira acesa, aguardávamos a chegada dos convidados. Como Itacaré e Serra Grande é uma região de muitos estrangeiros, a festa não podia deixar de ter nacionalidades variadas. Foi o São João mais internacional que já presenciamos … rsrs pois haviam pessoas de vários cantos do mundo. Devido também ao mestre de capoeira Cabelo, que viaja por vários países ensinando esta arte e mantém em seu sítio um sistema de intercâmbio cultural com imersão em capoeira.

Também teve a apresentação de seu grupo Trovão. Por um momento, pensei estar no meio da Praça da Apoteose no Rio de Janeiro com aquela batucada conquistando e mexendo com nossos rebolados … mas retornei à realidade quando vi Lu ensinando o americano Jordan a pronunciar palavrões e ele se esforçando para pronunciar corretamente.
(gritei) - No Jordan ! That is not correct. That’s bad language and she´s crazy.
No dia seguinte organizamos tudo e fomos para a praia para assistir e fotografar o tradicional “Bába” de futebol de São João. A diferença é que todos os jogadores trocam as bermudas e camisetas por mini-saias e tops decotados. Uma “gracinha” hehe.

Depois eu, Lu, Cris, Nick e Dimi fomos dar um passeio para conhecer a vizinhança como o energético sítio da Sol e do Gil (Solange, uma sulista e professora de natação que mora naquela região. Uma casa simpaticíssima ao lado de uma lagoa onde pudemos tomar um banho de cascata gelaaaaaado para espantar a preguiça do feriado.

Lu, com seu horto-radar, avistou mudas de coqueiro anão e foi logo colocando uma no carro. Depois fomos conhecer o sítio do mestre capoeirista Cabelo.

Um sítio dos sonhos. Um Éden! Com lagos, gansos, gramados, coqueiros, cachorros, quiosque para aulas de capoeira, muito verde e uma cozinha externa imensa com fogão e forno a lenha onde fomos convidados para um chá de cidreira. No caminho da cozinha atravessamos um viveiro de mudas. Olhei para Lu e avisei:
- Contenha-se, por favor !
No retorno, ela não resistiu, mas desta vez pediu ao dono uma muda de pitangueira a qual foi prontamente atendida ! E enquanto ela acomodava a muda de quase um metro no carro, eu corria de um carreirão dos gansos! rsrs
Voltamos para Serra Grande para tomar um açaí na praça e para um papo rápido com o casal Sol e Gil. Depois retornamos para o sítio já a noitinha para nos preparar para a viagem de volta à Salvador.
As 5 hs da quinta-feira retornamos para Salvador. Desta vez com a companhia de Nick, filha de Cris, nossa daliti!. Paramos no restaurante Natureza Viva para tomarmos sucos e misto de queijo com banana e, em Santo Antônio de Jesus paramos na estrada para comprar artesanato. Enquanto eu escolhia uma panela de barro para fazer moquecas, Lu apertava a protuberante barriga de banha do simpático vendedor e lotava o carro com peças artesanais de cipó fazendo de Nick uma sardinha enlatada durante o restante da nossa viagem!
Tudo bem que eu implico com as maluquices de Lu e do Garoto Enxaqueca (Dimi), mas assumo minhas rabugices … rsrs. É respeitando as diferenças que mantemos nossos amigos e amores, além, dos desvios e ocorrências nos nossos objetivos … mesmo indo para o Sul da Bahia via Alagoinhas/Aracaju … “a vida tôda” ! Kkkk.

Sítio Paraíso